Hana-Bi: Fogo de Artifício


Takeshi Kitano pode ser designado, de uma forma muito simples e concreta, o homem dos sete instrumentos do Japão. Kitano é um autêntico senhor na arte do entretenimento, que viu a sua obra ser reconhecida nos diversos setores de atividade em que participa, todos muito distintos entre si:. Na Europa e além-Atlântico, "Beat" Takeshi (tal como foi apelidado pelos habitantes do Japão, seu país de origem) é mais conhecido e conceituado pelo seu trabalho na área do cinema, tanto como ator como realizador, argumentista e editor. Mas Kitano também deixa marcas do seu enorme talento e criatividade na comédia (televisiva ou radiofónica), na música, na televisão como apresentador, na poesia, no design de um videojogo e na pintura. Aliás, alguns quadros de sua autoria podem ser contemplados também em «Hana-Bi: Fogo de Artifício», filme de que vos vou falar nesta crítica e que me surpreendeu por me mostrar um mundo cinematográfico que não conhecia, mas de que me tornei imediatamente admirador.

«Hana-Bi: Fogo de Artifício» é um grande filme que se torna um perfeito exemplo da diversidade e da força da visão cinematográfica de Takeshi Kitano, das suas histórias (quer envolvam a yakuza - que se trata do crime organizado japonês - quer não) e dos atores que dão vida às suas personagens (incluindo o próprio Kitano). O filme é considerado um marco na carreira de Kitano na Sétima Arte, visto que foi com ele que o realizador/autor/pintor/etc recebeu o galardão maior do Festival de Veneza: o Leão de Ouro. Com uma poderosa banda sonora da autoria do compositor Joe Hisaishi (que já assinou outras colaborações em filmes de Kitano), «Hana-Bi: Fogo de Artifício» é a prova de que vale sempre a pena alargar horizontes cinematográficos, rumo a caminhos e autores que nos eram dantes completamente desconhecidos. E digo isto porque conheço muito pouco do que se tem feito em termos de cinema oriental (em termos de títulos sim, já ouvi falar de uns quantos, que são muito prometedores, mas ver algum deles, até agora ainda não tive oportunidade para tal) e este filme foi um bom ponto de partida para explorar, com mais detalhe, não só a cinematografia japonesa, como também de outros países cujas produções (de grande diversidade e qualidade) me têm, infelizmente, passado ao lado nos últimos tempos.

«Hana-Bi: Fogo de Artifício» é um filme profundo, tocante e maravilhosamente construído, que resulta do cruzamento de diversas histórias que circulam à volta do mesmo personagem: Nishi, detetive da polícia japonesa. Nishi vê-se confrontado com inúmeros dilemas que se misturam e se entrelaçam ao longo de todo o filme: a sua esposa, doente em fase terminal, as memórias traumáticas das mortes dos seus colegas de profissão, a condição debilitada de outro agente após uma operação policial (que o leva a começar a ter tendências suicidas e um gosto pela pintura que o mantém vivo) e a dívida monetária que tem com a yakuza. O filme gira à volta destas várias situações, do impacto que as mesmas exercem sobre Nishi. Para resolver todas as problemáticas que atormentam a sua mente, o detetive decide engendrar um plano que dará uma solução viável (e feliz, em parte) às personagens que influenciam a sua vida e o seu dia a dia.

Takeshi Kitano constrói um filme belíssimo, quer em termos de sensibilidade (não caminhando para a lamechice - e isto é importante salientar), quer em termos de humanidade. Esta história passa-se numa cultura completamente diferente da nossa mas é quase impossível não nos identificarmos com ela, ou com algumas partes desta história, contada, simultaneamente, com cenas repletas de violência e de completa calma. Talvez seja essa a razão que levou o Professor com quem estou a fazer o projeto do cinema na escola a trocar o «Kikujiro» (também do Kitano) por este, depois de eu lhe ter falado que tinha gostado bastante do filme, por dar mais motivos para a reflexão do espetador em relação à sua própria vida quotidiana. É um filme pesado, sim, mas que não se esquece e que me marcou muito. Mas penso que terei de fazer um novo revisionamento, daqui a algum tempo, para retirar mais coisas novas dele. Porque «Hana-Bi: Fogo de Artifício» é daqueles raros filmes que me fez ter pena quando cheguei aos créditos finais, porque gostaria de voltar de novo a todo aquele universo sensível, humano e violento (com alguns toques de excentricidade) que caracteriza este filme galardoado de Takeshi Kitano. «Hana-Bi: Fogo de Artifício» é um filme diferente e inovador em certos aspetos que pede para ser visto. E vale mesmo a pena!

Nota: * * * * 1/2

Comentários

  1. AHAHAHA, há que saber fazer hm... Agora não me lembro da palavra. Mas diz que um bom titulo é sempre bom. Consegui enganar-te :P
    "é só sobre o teu" , só sobre? Ui! É mais do que isso :)

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