As Faces de Harry


A vida é como Las Vegas, umas vezes em cima, outras vezes em baixo. Mas no fim, é sempre a casa que ganha. E não quer dizer que não te tenhas divertido...


Sempre me interessei, ao ler livros, ver filmes, contemplar certas e determinadas obras de arte, em conseguir compreender qual seria a parte da "realidade" que teria estado metida na feitura desses ditos elementos da nossa cultura e que perfazem a existência de cada um de nós. Para mim é impossível que, para um dado autor ter uma determinada ideia para qualquer coisa, a mesma tenha vindo do nada. Há mais condicionalismos na criação da arte (mesmo quando se trata de obras de pura ficção) do que se possa, à partida, imaginar. E «As Faces de Harry», um dos mais inteligentes, profundos, pessoais e diretos filmes de Woody Allen, é como que uma espécie de reflexão sobre o tema, mostrando que não é por algo sair da cabeça de alguém, com personagens inventadas e imaginação à mistura, que a ficção se deixa de basear (nuns casos, de uma maneira mais identificável, noutros não tanto) em casos verídicos presenciados pelo autor (quer em relação à sua vida pessoal, quer no contacto com as outras pessoas que conheceu ao longo da sua vida, retirando, desta junção de conhecimento e socialização, alguns episódios da memória que, vendo bem, até dão uma boa história).


As personagens das histórias de Harry Block, um escritor de best-sellers interpretado por Woody Allen (que, mais uma vez, como é hábito, escreveu o argumento do filme - que foi nomeado para Oscar), são como, digo eu, as dos filmes do próprio Allen (quer sejam representadas por ele próprio, quer por "special guests", como é o caso de John Cusack em «Balas sobre a Broadway», de Larry David em «Tudo Pode dar Certo», entre outros): tratam-se do autor, em estado de espírito e ideias, mas "um bocadinho disfarçado" (como o próprio Block as caracteriza no filme).. Apenas alguns pormenores mudam, como o nome para o seu alter-ego, e o acrescento de algumas características que tornem mais atrativas a história real agora transformada em ficção. Mas falemos um pouco, então, de Harry Block: trata-se de um escritor que, tal como muitos outros autores que exercem a mesma profissão, tem a mente virada do avesso: bebe, toma comprimidos, teve várias mulheres mas nunca conseguiu, verdadeiramente, tornar-se merecedor de alguma delas, e agravando o facto que as mesmas (e os seus familiares) criarem algumas desavenças com os escritos de Block por serem demasiado colados aos episódios que se sucederam na vida real e esteve em processo de terapia com diversos psiquiatras (começando, desde logo, na sua juventude). Block sofre um bloqueio criativo que o impede de escrever novas histórias, no seu estilo inconfundível que é bastante admirado pelos críticos e pelo público, que se identifica com as personagens criadas pelo autor. E entretanto, a sua antiga universidade (de onde tinha sido expulso) convida-o para uma homenagem à sua vida e à sua obra. E enquanto Harry Block (talvez, como alguns críticos - reais - apontaram, um alter-ego, além de Allen, da personagens Antonius Block, do filme «O Sétimo Selo» de Ingmar Bergman, filme de que Woody Allen é um grande admirador, reservando-lhe um lugar no seu "top 10" pessoal dos melhores filmes de todos os tempos para a Sight And Sound) se vê no meio de todos estes problemas sem solução aparente, acompanhamos as partes da sua vida que influenciaram a criação das suas personagens, chegando o filme a uma parte em que Block vê as suas personagens a interagirem com ele na "sua" realidade, e que o fazem perceber, a pouco e pouco, as coisas que estão erradas na sua existência e no seu modo de agir com as pessoas e consigo mesmo.

«As Faces de Harry» é o filme-resposta para aqueles que se perguntam se os filmes de Woody Allen baseiam-se na sua própria vida, se todas as suas personagens (desde o humorista Alvy Singer, de «Annie Hall», até ao trapaceiro Ray Winkler de «Vigaristas de Bairro», para não ter de mencionar, em jeito de lista, outros trinta e tal alter-egos) são "ele". Woody Allen não responde, diretamente, a essa questão (aliás, basta ver os seus filmes e compará-los a sua vida real), mas mostra, como quase fosse uma espécie de confissão cinematográfica, que tem vários "eus" (não ao jeito, obviamente, de Fernando Pessoa - felizmente!) na ficção que acabam todos por ser a mesma pessoa. E Allen faz isso de uma maneira tão brilhante e cativante que me fez pensar bastante também na forma como vemos e criticamos a arte, assim como nos identificamos ou imitandos certas personagens do mundo do cinema, da televisão ou da literatura, de uma forma que faz parecer que a nossa vida se molda em volta desses nossos "ídolos" do grande ecrã, do ecrã mais pequeno e do papel, que nos alteram a forma de falar, de pensar e de, em certos casos, vestir. 

O filme está recheado de grandes estrelas do Cinema Americano que, fazendo aparições mais pequenas ou com uma maior duração, não deixam de marcar a sua presença e deixarem uma memória de distinção de umas entre as outras ao espetador. O argumento de Woody Allen é algo diferente do utilizado noutros filmes do humorista, ao nível da linguagem dos diálogos e das personagens (usando um estilo um pouco mais hardcore - sou o único que faz um pouco de confusão, em certas partes do filme, ouvir Allen soltar um f*ck deliberadamente? É que, pronto, em outros filmes até é normal a sua personagem soltar uma ou outra "f-word", mas aqui é como se atingisse o estado de palavrão de Joe Pesci em «Tudo Bons Rapazes» - não façam comparações, não é esse o objetivo) e das próprias cenas, onde não existe aquele mecanismo da piada sempre imediata das personagens (que Woody Allen tem vindo a utilizar nos seus filmes mais recentes, mas também noutros que "nasceram" antes de «As Faces de Harry») e a história do filme é de uma grande complexidade e profundidade. Para mim, este tornou-se num dos Grandes filmes de toda a vasta carreira de Woody Allen (e que até agora só conheço perto de metade) e que é imprescindível ver, primeiro, pelos fãs do autor e da sua obra, como para quem gosta de variar, de vez em quando para um filme mais inteligente e que nos faça pensar. «As Faces de Harry» é um filme fabuloso que foca o pensamento de Woody Allen e a criação dos seus filmes, sendo também uma reflexão da vida moderna e da escrita na atualidade.

Nota: * * * * 1/2

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