Anjos de Cara Negra: "Whaddya Hear? Whaddya Say?"


Na tarde do dia de hoje, momentos depois de ter visto este fascinante filme que dá pelo nome de «Anjos de Cara Negra», peguei, num daqueles acasos da vida completamente improváveis, num pequeno livro antigo das Seleções com «Frases Célebres de Pessoas Célebres» (pelo menos é o título dessa dita obrazita). Numa das inúmeras frases estampadas no livro, houve uma que me chamou a atenção por me ter identificado muito com a mesma em relação à opinião de que fiquei desta excelente obra cinematográfica que os meus olhos tiveram o prazer de contemplar. A citação é da autoria de Robert Frost, um dos maiores vultos da poesia norte-americana, que afirma que «É absurdo pensar que o único meio de saber se um poema é imortal seja aguardar que ele perdure (...) A verdadeira prova de um poema não reside no facto de nunca o havermos esquecido, mas de nos apercebermos imediatamente de que jamais poderemos esquecê-lo».

Trocando o "poema" da frase por "filme", a opinião de Frost assenta que nem uma luva a «Anjos de Cara Negra», e tantos outros filmes que fazem parte dos meus preferidos (este também já entrou na lista, é o 56º. Gostava de saber quantos filmes preferidos é que vou ter daqui a um ano... Ao ritmo que isto anda ainda chego aos 100 sem me aperceber disso...). Digo isto porque penso que este filme de Michael Curtiz ficou sempre na sombra, tendo apenas resistido por ter obtido, ao longo das décadas uma legião de fãs numerosa (e que conseguiram que o filme conseguisse ter a nota de 7.9 no IMDB, o que não é nada mau). Mas se fosse apenas por relações "temporais", como afirmou Frost, o filme ter-se-ia perdido naquela década (não) tão longínqua que foi a de 30. Se aguardássemos que o filme perdurasse com o passar dos anos (não tendo nem grande apupo e aclamação por parte dos críticos das décadas seguintes nem o reconhecimento de grandes instituições como o American Film Institute), seria como se nunca tivesse existido. Quer dizer, pela qualidade da cópia que foi convertida para a edição DVD do filme, percebemos que o mesmo nunca foi sujeito a condições apropriadas de conservação (existem várias falhas, muito visíveis mesmo, das bobines e de muitos fotogramas, ao longo de todo o filme).

Mas tinha dito que o filme ficara na sombra. Afirmei isso porque o realizador de «Anjos de Cara Negra», Michael Curtiz, elaborou, alguns anos mais tarde, o clássico «Casablanca». É outro excelente filme, sim senhora, mas parece que, tanto como o «Anjos», como o resto da filmografia de Curtiz, ficou sempre esquecida por causa da grande aclamação que «Casablanca» tem... desde sempre. E eu adoro o «Casablanca», é outro filme que consta na minha lista de favoritos de todos os tempos. Mas quando um filme quase que apaga todo o trabalho de um realizador que, aliás, era um dos maiores da sua área na época, isso é triste, porque acho que Curtiz tem muito para explorar (não sei em termos de qualidade, mas em quantidade, oh lá lá - no ano em que estreou «Anjos de Cara Negra», Curtiz esteve envolvido em três outros filmes, quase em simultâneo. E hoje em dia isso é obra!) e esta maravilhosa obra é um exemplo singular disso mesmo. Vejam é estes dois filmes (que foram os únicos que vi de Curtiz, por isso apenas deles posso fazer juízos), que já têm algumas horas de excelente entretenimento, na companhia de dois símbolos da melhor qualidade e excelência da produção cinematográfica hollyoodiana.

Os anos 30 e 40 foram repletos de grandes momentos de cinema que perduram até hoje... pelo menos para a minha pessoa. É que me sinto cada vez mais fascinado pelo cinema desta época, especialmente o que saía das grandes distribuidoras norte-americanas (principalmente a Warner Brothers), que eram, na generalidade, produtos cinematográficos repletos de estrelas, grandes histórias (mais atuais do que se possa imaginar) e fantásticos realizadores, que deixaram a sua marca em filmes brilhantes e que conseguiram retratar na perfeição os EUA durante as duas décadas citadas. E «Anjos de Cara Negra» é um filme de um género que, na altura da estreia, estava na moda: o filme de gangster, sendo alvo de filmes melhores e outros que não passavam de cópias do que se já tinha feito e que serviam apenas para render o peixe. É como os westerns: chegou-se uma altura em que, em Hollywood, se produziam filmes do género como se tivessem sido criados segundo um modelo de "estandardização", aquele que o senhor Henry Ford criou no princípio dos anos 20. Eram tantos westerns que se faziam, mas apenas poucos sobressaíam da generalidade das produções (principalmente por terem, nele envolvidos, Senhores que elevaram o género a Arte - como John Ford ou, numa fase de finais da era de prosperidade das histórias do Far-west no grande ecrã, Sam Peckinpah). O mesmo acontecia com os filmes de gangsters: a maioria das fitas feitas em moldes que envolvessem pancadaria, corrupção e histórias de amor vulgares, apenas tratavam temas como... pancadaria, corrupção e histórias de amor vulgares. 

Contudo, existem sempre os pontos isolados no meio do oceano, e «Anjos da Cara Negra» eleva o género do filme de gangsters a um patamar superior, como também consegue dar alguns toques de film-noir e de bom drama que lhe dão uma qualidade superlativa (pelo menos, a meu ver). A história é contada de uma maneira fluída, de uma forma muito rápida (que me fez lembrar, recorrentemente, o estilo utilizado por Michael Curtiz em «Casablanca») mas sem perder algum pingo de credibilidade. Acompanhamos Rocky Sullivan (interpretado por um estrondoso James Cagney, um dos melhores atores de todos os tempos - e afirmo isto tendo apenas visto um filme com ele, pelo menos por agora...), um gangster que, depois de ter passado quinze anos de prisão em prisão (e ter acabado o seu período prolongado de "férias" atrás das grades apesar de ter feito coisas que lhe permitiam poder gozar mais uns anitos na choldra), se vê cá fora no mundo "real" e apressa-se em arranjar mais esquemas e patifarias para conseguir singrar na vida do submundo do crime. No caminho reencontra Jerry, o seu amigo larápio de infância, que entretanto, com o passar dos anos, se tornara padre (Pat O' Brien num excelente papel, que comprova a dita química entre este e Cagney, muito por "culpa" da grande amizade que os dois atores conservaram nas diversas produções em que participaram juntos), que pretende, além de querer tentar mudar o seu velho amigo para os bons caminhos da vida (pois nele ainda vê várias razões para preservar a esperança na salvação da sua alma), impedir que os miúdos maltrapilhos (interpretados pelos Dead End Kids, um grupo que tinha feito sucesso na Broadway com uma peça de nome «Dead End» e que foram brilhantemente aproveitados para este filme), sucessores (a nível geracional) de Rocky e Jerry, sigam os mesmos caminhos que o gangster mais temido da cidade, que a criançada adora e vê nele um exemplo. Entretanto, Rocky reencontra uma moça que, quando eram mais miúdos, ele fez o favor de humilhar em público. E - adivinhem só - ela apaixona-se por ele, sim. É um cliché, sim, mas não é do cinema. A vida real é mais assim do que se pensa. Entretanto, o advogado ardiloso de Rocky, que decidiu apoderar-se da massa que ele pediu para lhe guardar enquanto estivesse preso, aproveita para retirar o seu "cliente" do caminho quando ele regressa da cela. E a ele se juntam outros gangsters que pretendem fazer a folha a Rocky, a ver se ele deixa de andar pela cidade fingir que é bom.

O resultado desta salganhada de histórias (que são todas muito simples, mas com mais profundidade do que aparenta - ao menos a nível pessoal, do espetador) mostrou ser para mim surpreendente do princípio ao fim. A realização de Michael Curtiz é competente, inteligente e esmagadora em termos emocionais para quem vê «Anjos de Cara Negra». Gostei muito de reparar o forte uso dado às luzes dos cenários, à fotografia das cenas (que perde algum do seu vislumbre pela cópia algo degradada do filme), às interpretações dos atores, ao argumento que, apesar de ter grandes falas, não perdeu o ritmo nem o meu interesse por estar muito bem planeado, executado e interpretado. A banda sonora é excelente e condizente com todas as ações do filme, não se exagerando nem fazendo falta por estar muito bem selecionada e organizada. Uma nota também para os planos de câmara, que nos aproximam das personagens e dos ambientes que as rodeiam (e nisto Curtiz mostrou uma das suas maiores potencialidades/talentos), e que foi a causa da minha emoção com os últimos momentos do filme (juntando-se à apoteose de Cagney e O'Brien, que mostram que a amizade e a dignidade do ser humano não tem limites, independentemente do ambiente em que se foi criado). «Anjos de Cara Negra» é, para mim, e digo-o sem receio, uma obra-prima, igualável a «Casablanca» em termos de qualidade, e que mostra como certos clássicos podem não resistir ao tempo, às listas dos críticos e a todas essas coisas, mas consegue sempre, se for bom, obter um culto de fãs atentos e maravilhados com o mesmo, que ganham interesse por ele ao gostarem de descobrir pérolas da 7.ª arte. Não sei se me posso incluir nesse grupo de "cinéfilos", mas que fiquei fã do filme, isso afirmo com toda a certeza!

Nota: * * * * *

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