A Desaparecida



Aconteceu-me uma coisa peculiar com «A Desaparecida», filme tido para uns como dos melhores do realizador John Ford, e para esses e mais alguns, como o melhor western de todos os tempos. O que se passou é o seguinte: eu vi este filme há duas semanas (sim, duas semanas!) quando passou na RTP Memória, no ciclo de fim de semana «Noite de Cinema», apresentado sempre pelo ilustre crítico José Vieira Mendes. A pergunta que se põe é: Porque é que demorei tanto tempo a pegar nas ideias com que fiquei do filme e expô-las no mundo da virtualidade?

A resposta resume-se a isto: antes de ver «A Desaparecida» retirei todas as informações que tinha já absorvidas sobre o filme na minha cabeça. Antes de ter iniciado o visionamento do filme, a notoriedade e a reputação do mesmo desvaneceram-se da minha mente como se nunca tivessem passado por ela, não fosse eu ter uma desilusão de todo o tamanho só por causa de uma atribuição dada por críticos e realizadores de cinema. Pensava que, assim, poderia desfrutar do filme o máximo possível e sem estar a matutar sobre as opiniões das outras pessoas enquanto estava a formatar a minha sobre a história protagonizada por John Wayne, e que até envolve uma família massacrada, perseguições, índios, escalpes e tudo.

Mas ao acabar de ver «A Desaparecida» (e apesar de ter gostado muito do filme) não me dei por satisfeito, e como o tinha deixado a gravar naquele serão, aproveitei para, alguns dias depois, o voltar a ver. Pensei que talvez se sucedesse como na primeira vez que vi «O Padrinho»: à primeira tornou-se um filme marcante, mas só consegui apanhar toda a sua essência no segundo visionamento. E é um daqueles filmes que descubro, praticamente, algo de novo para apreciar e admirar a cada revisitação. Mas isso não se sucedeu com a segunda vez que "analisei" «A Desaparecida». Fiquei completamente na mesma. O filme é muito bom, sim senhora, mas a meu ver não chega sequer a ser um dos melhores westerns de sempre, nem mesmo o punha dentro da minha lista pessoal dos melhores filmes de todos os tempos. E isto só pude constatar, realmente, quando acabei de ver o filme em cada uma das duas vezes em que acompanhei a busca de Wayne pela sua adorada sobrinha. Daí, precisei de mais uns dias para matutar no assunto e só agora, devidamente, consegui arrumar as ideias para escrever um texto mais ou menos decente.

Vou tentar ser mais explícito (e não quero que os amantes deste filme tanto como dos outros westerns do Senhor Ford me levem a mal), mas sucedeu-se isto: vi o filme na televisão, vi o filme alguns dias depois. A minha reação e a minha opinião em nada mudou. Porquê? Acho que esta minha sensação de negação ao estatuto de obra-prima de «A Desaparecida» se deve a duas coisas: primeira, não fiquei grande adepto do "acting" de John Wayne. Não sei porquê, mas ele parece-me muito canastrão. Acho que não é um grande ator, perdoem-me por dizer isto, apesar de ter grandes momentos no filme; e a segunda, é que este western, a mim, não me mostrou nada de novo (em termos do pouco que conheço sobre o género). Aliás, pareceu-me seguir todos os estereótipos que são, desde o início, satirizados na série de BD «Lucky Luke», criada por Morris (e sendo René Goscinny responsável, a meu ver, pelas histórias de uma grande parte dos melhores álbuns do cowboy mais rápido que a própria sombra). Quando vejo um western, gosto que me mostrem coisas mais inovadoras (como, por exemplo, o caso do formidável «Aconteceu no Oeste» de Sergio Leone e o mais recente «Indomável» de Clint Eastwood). E podem-me dizer: estou a comparar coisas completamente diferentes. Sim, é capaz que esteja, mas «A Desaparecida» não teve em mim a chama que teve, por exemplo, com um Professor da minha escola, com quem estou a organizar um ciclo de cinema para a mesma e que pediu, expressamente, para pôr este filme na lista das escolhas. Engraçado como, depois de ter visto duas vezes o filme, ter ouvido este Professor contar diversas teorias e opiniões dele sobre o filme, que simplesmente adora. Mas parando de falar das picuinhices que pude reter do visionamento de «A Desaparecida», vou-me debruçar então sobre o que vi de bom no filme.

Apesar de «A Desaparecida» não ter sido, para mim, um filme excecional, é óbvio que não posso deixar de considerar que está muito bom (e mesmo apesar dos dois defeitos que lhe apontei). John Ford mostra o seu grande engenho em mostrar o Oeste de uma maneira mais superior e mais pormenorizada que outros realizadores. Tomei contacto pela primeira vez com a obra Fordiana com o visionamento do fantástico «A Grande Esperança» («Young Mr. Lincoln» no original, um filme sobre um Lincoln mais jovem, antes de ser presidente, que me tocou bastante e que merece, sem dúvida, uma revisitação em breve) e fiquei fascinado com as mensagens que Ford conseguiu transmitir utilizando a magia dos planos de câmara. Em «A Desaparecida», Ford utiliza ao máximo o ambiente que lhe foi oferecido para nos dar deslumbrantes imagens que só podem mesmo ser devidamente apreciadas num ecrã gigante. 

«A Desaparecida» não vale tanto pela história em si, mas sim pela forma como é contada, pela forma como nos é mostrada a longa e fatídica busca de Ethan (John Wayne) para conseguir encontrar a sua sobrinha. Não estamos na presença de um filme de ação corriqueiro, repleto de efeitos especiais e pura e dura carnificina indígena. Trata-se de um caso de vida ou de morte para Ethan, e que o espetador vai acompanhando. E não só fica a par de toda a história dramática do filme, há também espaço para o romance, com a relação entre o tal filho índio adotivo com uma rapariga de uma família próxima de Ethan. Mas mais do que isso, «A Desaparecida» é uma história sobre a família, sobre os verdadeiros valores que cada pessoa tem, e abordando por fim, a noção de justiça e de civilização que difere de indivíduo para indivíduo. «A Desaparecida» é um western mas também um drama carregado de um profundo sentido humano e que não deve ser visto como uma obra-prima. Talvez isso seja algo geracional, não sei, mas sendo para alguns excelente e para outros não, o visionamento deste filme é proveitoso, porque no fim de contas, trata-se de uma grande obra. Não prima pela perfeição, mas nem está longe disso, na minha cretina e idiótica opinião. E vale a pena, com certeza! E talvez a minha opinião e o moderado desagrado que tive com o filme, é capaz que mudem com os anos. Acho que é bem provável...

★ ★ ★ ★

EDIT 02-03-2015: passado este tempo todo o filme nunca me saiu da cabeça, o que me obrigou a revê-lo finalmente, e em condições apropriadas, neste ano de 2015. Não concordo nada, nada, nada com a mediocridade das palavras acima postadas. Se escrevesse esta crítica agora, eram 5 estrelas sem tirar nem pôr. Mas pronto, não quis alterar o que o meu espírito mais infantil considerou desta obra prima, nos idos de 2012.

Comentários

  1. A Desaparecida é tido como um dos grandes filmes de sempre e O preferido de muitos realizadores ditos actuais (Scorcese por exemplo). Curiosamente também da primeira vez que o vi (e ainda hoje) não lhe reconheço tamanhas qualidades, não ao ponto de o idolatrar. Vejo ali muita substância, muita intensidade e muita serenidade. Porventura será disso, e pelo que dizem, um filme para se rever muitas vezes, que precisa de um certo amadurecimento para se apreciar na sua totalidade. Enfim, daqui a uns anos voltarei à carga, e tal como tu, talvez aí lhe conceda o estatuto tão proclamado.

    Bom espaço este :)

    Cumprimentos,
    Jorge Teixeira
    Caminho Largo

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  2. Muito obrigado Jorge pelo comentário (e já tive oportunidade de visitar o seu blog e gostei muito do que pude ler). Em relação à «Desaparecida», será mesmo isso: o tempo é o melhor julgamento para o filme. Scorsese tem-no nos seus preferidos e dá-lhe especial atenção no seu documentário «Uma Viagem pelo Cinema americano», que recomendo. Muito obrigado mais uma vez!

    Cumprimentos,

    Rui Alves de Sousa

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