Um Homem para a Eternidade



A História da Europa, ao longo dos séculos, revelou-se propícia a ser usada e abusada pelas lides hollywoodianas (embora, mais nos últimos tempos, o alvo do entretenimento cinematográfico e televisivo americano tenha sido mais a badalhoquice das épocas que retratam do que os factos e acontecimentos mais interessantes e que marcaram a mesma), que desde os primórdios da Sétima Arte, tem abordado muitos episódios importantes (outros menos que outros, diga-se) em diversos filmes e séries de televisão.

Eu, sinceramente, nunca fui grande fã de filmes ou séries que se passassem muito atrás no tempo. Não sei porquê, mas nunca me pareceram interessantes o suficiente para ter pachorra para os acompanhar até ao fim. Casos como o dos grandes épicos bíblicos (que, na minha opinião, são constantemente alvo de sobrevalorização), ou as grandes produções como «Cleópatra» (um espectáculo visualmente deslumbrante, mas que falha em termos de qualidade e veracidade), passando pelas séries mais recentes «Os Tudors» (OK, este é o maior exemplo da badalhoquice com que a indústria do entretenimento trata a Idade Média e os séculos anteriores ao XIX) são algumas das provas do meu desgosto por este tipo de entretenimento, que pretende ser real ou, ao menos, «inspirado numa história verídica», mas esse epíteto não basta para substituir todo um trabalho de produção e argumento que, muitas vezes, é esquecido de ser trabalhado.

Contudo, há filmes/programas que se destacam (e que se tratam, verdadeiramente - no caso dos filmes-, dos que são unanimemente considerados como clássicos de visionamento obrigatório) por conseguirem ser, além de grandes peças de arte e de entretenimento, uma reconstituição da época que retratam que, apesar de não poder ser 100% fiel à realidade daqueles tempos tão antigos (como há menos registos e como não havia câmaras de filmar ou máquinas fotográficas para se registarem momentos para "mais tarde recordar", poderá haver certas dificuldades em retratar o que foi real), conseguem ser um verdadeiro luxo para a vista e um complemento diria que educacional, que nos faz relembrar certos pormenores e factos absorvidos em algumas aulas de História. Foi o que me aconteceu, a ver «Um Homem para a Eternidade», um filme que é realmente uma verdadeira jóia da coroa britânica e um filme que terá mesmo de durar para a Eternidade (e desculpem a ideia tão fatela e tão pouco criativa, do uso do título do filme para o elogiar, mas enfim, foi o que pensei que fazia sentido), quer pela dimensão da sua história e pelos pontos tão importantes que foca da História do Reino Unido (e da própria Europa) durante a época de mudança e inovação que foi a dos Descobrimentos, quer pela mensagem e pela moral que transmite, através do exemplo de Thomas More, um dos mais influentes pensadores de todos os tempos (e uma grande figura da época do filme) e cuja obra literária «A Utopia» revela-se como uma das mais célebres e estimadas obras da História da Filosofia.

Mas situemos «Um Homem Para a Eternidade» no tempo e no espaço: é o reinado do terrível, do abominável, do... tarado... rei Henrique VIII, que está prestes a divorciar-se da sua primeira mulher para poder contrair matrimónio com a amante Ana Bolena, a ver se é ela que lhe consegue dar o herdeiro que Henrique tanto pretende (e que, cof cof, será a razão para ele se divorciar mais umas quantas vezes durante todo o seu reinado... mas continuemos). Ora, vistas as coisas do prisma da nossa atualidade, o século XXI (sim, aquele século em que, na altura do rei britânico, toda a gente pensava que o mundo já teria acabado), esta situação parece ser perfeitamente banal e desprovida de interesse (até mesmo para qualquer revista do socialite). Mas é claro que isto foi um choque tamanho para a comunidade religiosa da época, e principalmente para Thomas More, um católico muito convicto das suas ideias e crenças e que via o plano de Henrique VIII (e que, um pouco mais tarde, faria com que fosse formada uma Igreja completamente independente do Papa e do Vaticano - a Igreja Anglicana) como um ataque ao que o próprio defendera pouco tempo antes. Mas, claro, quando há poder, há amigos, e entretanto toda a malta aristocrata põe-se do lado do Henri e dos seus planejos conjugais. Contudo, Thomas More não muda a sua opinião, dando um exemplo de integridade que lhe custou a própria vida, mas que o eleva como Ser Humano acima de todos os foliões da corte. E hoje em dia, mais do que nunca, é importante pensar como isto é atual. Como o facto das pessoas mudarem de ideias e convicções segundo os seus próprios interesses tornou-se uma matéria tão  comum no nosso dia-a-dia (como já mostrava ser na época), quer nos partidos políticos, quer nos altos cargos económicos e financeiros, quer em muitos outros exemplos que estão, diversificadamente, registados em diversas personalidades, tempos e locais, em toda a História do Mundo. Thomas More pretendia um mundo perfeito na sua Utopia, e podia não conseguir concretizar o universo que a sua mente criou, mas mostrava ser uma pessoa muito mais inovadora e importante que a maioria dos filósofos da sua época. É uma referência incontornável, até aos nossos dias (tão incontornável que até o próprio Cavaco Silva - ainda primeiro-ministro - afirmou numa entrevista que tinha, na sua cabeceira, um exemplar de «A Utopia» - pena não ter sabido dizer quem é o autor dessa obra...) e que não pode ser deixada esquecida no tempo. Apesar das suas ideias mais fervorosas e algo datadas em relação à religião, a integridade de More em relação aos seus ideais deveria servir de lição a qualquer pessoa, independentemente das suas crenças e ideologias.

O filme é baseado na peça homónima de Robert Bolt (que se encarregou de transportar a sua obra teatral para um guião cinematográfico), e conseguiu reproduzir, além de muitos pormenores e factos da época retratados no filme (que, ao contrário de outros casos, não são inseridos na ação da fita de forma forçada, ou para lembrar aos espetadores que estão a ver uma obra histórica que fala de coisas que realmente aconteceram), a "teatralidade" da peça sem perder a mais ínfima parte de credibilidade e de qualidade do texto original. Apesar de terem sido feitas diversas alterações à história de «Um Homem para a Eternidade» (tornando, assim, possível a melhor maneira de se adaptar a história de Bolt ao grande ecrã), o filme funciona de uma forma excecional e inigualável, dando mesmo a sensação que fizemos uma viagem no tempo até ao século XVI (ou à ideia mais próxima e apurada que se possa ter sobre como foi esse século) e à vida de Thomas More. Este factor é também muito auxiliado pela realização sólida e preparada de Fred Zinnemann (responsável por muitos clássicos de Hollywood, incluindo «Até à Eternidade» e «Oklahoma», o primeiro filme a ser gravado em 35 mm) que venceu um Oscar (entre os seis que «Um Homem para a Eternidade» recebeu, incluindo melhor filme e melhor argumento adaptado), e também pelas poderosas atuações de um elenco de luxo que dispõe de diversos gigantes da arte de representar e da arte de fazer cinema: Paul Scofield (também vencedor de um Oscar pela sua prestação no filme) é um magnífico Thomas More, muito convincente e muito bem preparado para o seu papel (provavelmente por ter feito parte do elenco da primeira apresentação da peça de teatro) e é auxiliado por um bom leque de atores secundários que deixaram a sua marca neste clássico do cinema: John Hurt (no filme que lançou a sua carreira), Robert Shaw (como o excêntrico e estranho Henrique VIII), Orson Welles (um pequeníssimo papel, mas que marca uma forte presença da personagem clerical que o ator interpreta) entre muitos outros, que fazem de «Um Homem para a Eternidade» um filme fascinante e visualmente impressionante que mostra que podem os tempos e as vontades mudar, mas há coisas, problemas, situações, que não se alteram com o passar das gerações.

Nota: * * * * *

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