Selvagens: e com um final, se estraga um filme



Ah, que bom sentir aquela sensação de desilusão que uma pessoa só pode encontrar numa sala de cinema. Aquela sensação de pequenez em relação à tela, por a mesma ter uma dimensão tão grande e nós sermos tão minúsculos em relação a ela.

OK, não era desta maneira que queria começar a falar de «Selvagens», a mais recente aposta do controverso Oliver Stone nas lides cinematográficas, mas não consegui imaginar uma maneira melhor para exprimir o que senti ao ver, hoje à noite, este filme num ecrã gigante. E esta vai ser daquelas críticas de "deitar-tudo-cá-para-fora", aviso já.

O meu desgosto em relação ao filme não é pelo seu conteúdo: aliás, «Selvagens» é um filme que possui uma boa dose de entretenimento, interpretações competentes e uma realização... vá... competente também (não terá o Stone consumido mais umas coisinhas para este filme?). O problema é o conteúdo do filme. A história é bastante interessante, e que deu azo ao realizador para se aproveitar disso e pôr muitas cenas de amorr e droga, mas isso não é o mal do filme, porque essas cenas não estão exageradas ou mal encenadas. O problema... é o final da história.

Mas já lá vamos. Gostaria, primeiro, antes de chegar ao que me desiludiu no final do filme, de dizer o quão estava a gostar do visionamento do mesmo. A sério, apesar de «Selvagens» transbordar de clichés de logística e de diálogos, é um filme que agarra o espetador à cadeira. Há coisas que são completamente surpreendentes (e outras menos, daí os clichés) e que são suficientes para nos manter concentrados no filme e na sua estranha história de um trio de amigos muuuito chegados, com dois rapazes e uma rapariga (um budista, outro "porradista", e a miúda que gosta dos dois moços - e de que os dois moços estão enamorados) que têm em mãos um negócio da mais pura erva que os traficantes podem ter a sorte de vender (sim, um pouco como o «Breaking Bad» - estou a gostar tanto da série que não pude deixar de fazer pseudo-comparações com a série). Entretanto, veem-se metidos em sarilhos com cartéis e dealers manhosos e com hábitos bizarros de vida. OK, até aqui tudo bem.

Mas há filmes cujo final pode ajudar a descambar tudo o resto. É como na vida. Há situações em que pensamos que estamos a ir no bom caminho, e por uma coisinha de nada, volta tudo ao zero. Não creio que «Selvagens» voltasse ao zero, mas que ficou muito danificado pelo final que teve, pelo menos para mim, disso não tenho dúvidas. Acreditem, quando constatei que o filme ia seguir aquele rumo, eu fiquei em estado de choque. Até não pude deixar de soltar, num tom mais ou menos alto, a minha indignação. Mas rapidamente calei-me e esperei que aqueles dois minutos de clichés e coisas felizes terminassem, para chegar aos créditos e poder manifestar junto dos meus amigos o meu desagrado. Não sei se o livro também é assim, se acaba com um twist inacreditavelmente idiota, e que seria o mesmo que uma criança de cinco anos usaria para acabar uma história, mas se é, então a história está só um bocadinho sobrevalorizada. Não quero estar aqui a spoilerizar sobre o final do filme (que, acredito, se alguém ler isto e depois for ver o filme vai ficar um pouco condicionado com o que aqui deixo escrito), mas eram precisos aqueles minutos antes do final, para nos fazerem constatar algo que nunca aconteceu, para depois dizerem «ah, afinal esta treta acaba assim e não da maneira que vos acabámos de mostrar. Só porque sim» (a frase pronunciada pela voz-off é algo semelhante a esta, vá)? Não poderiam, apenas, ter escolhido uma das ideias e pronto, não terem de fazer uma pequena "chachada" incomodativa neste filme? E pelo amor de Deus, não me digam que é um feito genial alguém ter conseguido dar vida a uma ideia tão infantil como essa, uma ideia que estragou a opinião que, até então, tinha formado sobre «Selvagens». Porque não é, de todo. Mas acho que é preciso as pessoas verem o filme para perceberem o que eu digo e analisarem de sua justiça (agora, certamente, já um pouco condicionadas - desculpem, não foi por mal. Queria tanto escrever isto agora para soltar o desagrado que restava no meu interior cá para fora). O filme é bom entretenimento e revela-se ser competente e muito bem visionável... até àquela parte em que uma pessoa fica «MAS ISTO ACABA ASSIM?». Mas sim, acho que até vale a pena ver. Mas não aconselho ninguém a pôr isto na sua lista de prioridades. Há melhor que se encontre por aí...

Nota: * * * 1/2

Comentários

  1. O final "atroz" não entra no livro, apenas o excelente, o último foi puramente metido à lá martelada. Sigo :-)

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  2. OK, é bom saber isso :) obrigado pelo comentário e pela informação!

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  3. Fui ver este filme ao cinema e tenho de dizer que não concordo contigo. Para já, as interpretações, a meu ver, são o que mais retira a qualidade do filme, uma vez que não achei nada adequada a escolha da rapariga de Gossip Girl, principalmente, por não conseguir transpor alguma da carga dramática que várias cenas exigiram. Quanto à realização, gostei, sim. Relativamente ao final do filme, foi o que mais gostei: totalmente inesperado, inspirador.. enfim, à medida do filme, que adorei.

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  4. Eu por acaso gostei do final introduzido no filme, um pouco mais realista. No filme houve a mistura, houve traços do final do livro e depois um final no filme.
    Tens de ler o livro, é excelente e o filme também o é.

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