segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Circo: Charlie Chaplin em erupção


A pequena (mas espantosa) obra cinematográfica «O Circo», de Charlie Chaplin, é um dos maiores exemplos da versatilidade da arte "chaplinesca" de se fazer cinema, graças ao cuidado do autor em preparar minuciosamente cada plano, cada sequência, cada gag do filme. E de tão minuciosa que é a construção que Chaplin, habilmente, cria para os seus filmes, que é impossível uma pessoa ver diversas vezes, por exemplo, «O Grande Ditador» sem descobrir algum pormenor cómico de Chaplin que tinha passado despercebido no visionamento anterior (sei o que digo: já vi esse filme mais de dez vezes e de cada vez que o vejo é sempre como a primeira!). Penso que isso se sucederá com (espero eu) revisionamentos futuros deste «O Circo», porque é um filme espantosamente hilariante e que poderia aproximar muita gente do género mudo, dada a atualidade da maioria das piadas (apenas algumas mais "slapstick" que se perderam um pouco no tempo, mas que funcionam - apesar de não me terem feito rir, mas isso tem a ver com o gosto de cada um), da inteligência do simples e sóbrio argumento de Chaplin e das interpretações de um elenco que, apesar de marcar a sua forte presença ao longo dos sessenta e oito minutos de «O Circo», sabemos que é o "Little Tramp" a verdadeira estrela desta comédia. 

Contudo, apesar de ser uma comédia que, na época, foi aclamadíssima (recebendo Chaplin um prémio especial da Academia pela genialidade do seu filme e a inovação que o mesmo trouxe), e que hoje em dia continua a ser um ponto de referência de comediantes e críticos, a feitura de «O Circo» trouxe más recordações de Chaplin, numa época conturbada da sua vida devido a um divórcio escandaloso com a segunda mulher, ao falecimento da sua Mãe (que, nos últimos anos de vida, mostrava grandes sinais de debilitação mental e física) e às próprias filmagens da película, que foi diversas vezes interrompida e numa delas devido a um incêndio nos estúdios. Embora as memórias tristes que rodeiam toda a produção de «O Circo», Charlie Chaplin decidiu-o (e bem!) repescá-lo em 1970, acrescentando uma (extraordinária e linda) banda sonora da sua autoria (que começa com uma pequena cantiga, de nome «Swing Little Girl», cantada pelo próprio Chaplin) e deu uma roupagem mais adequada e mais atual à sua criação cinematográfica. Mas com atualizações ou sem atualizações, Chaplin tem aqui mais uma grande pérola que marcou a sua carreira na Sétima Arte. Não diria que seja um dos meus filmes preferidos do autor, mas que é muito bom, é sim senhora! Consegue ter, em pouco mais de uma hora de duração, a qualidade que muitos filmes cómicos dos nossos dias não conseguem ter com duas horas. Penso que cada um se conseguirá rir de coisas diferentes, de gags diferentes, ao ver «O Circo» (daí a genialidade e a versatilidade da comédia "chapliniana") e todos ficarão sensibilizados com a (falhada) paixoneta do vagabundo Charlot pela artista do Circo onde, por um incidente que o torna uma atração, é contratado para trabalhar. A história é muito simples, e com um modelo que teve várias "imitações" ao longo das décadas, embora as cópias nunca tenham conseguido passar a genialidade do original (devido, em parte, por nunca - felizmente - terem conseguido imitar suficientemente bem o mesmo - assim poderia perder-se a magia de ver «O Circo» com a hipótese de apanhar com clichés de todo o tamanho...). Resumindo e concluindo, todos deveriam ver «O Circo» (e seria um filme obrigatório para o Plano Nacional de Cinema, divulgado há pouco tempo - quem é que quer ver "A saída dos operários da fábrica", pelamordedeus?!), é rápido, vê-se com delícia e acaba-se com uma sensação de alegria e boa disposição para a vida contagiantes. Está disponível no youtube, e não têm desculpas para não espreitarem. Invistam uma hora do vosso tempo livre e vão ver que não se vão arrepender!

Uma nota também, mais uma vez (como costumo fazer quando falo em filmes de Chaplin), para a edição DVD da MK2, de uma excelência sem igual, e que é pena que a Costa do Castelo, em reedições recentes do catálogo dos filmes de Charlie Chaplin, não tenha querido pôr os extras destas edições com uns anitos publicadas por cá pela Lusomundo (e assim, vendem edições simples dos grandes filmes de Chaplin ao módico preço de vinte euros ou mais...). A introdução do historiador David Robinson é sempre relevante para percebermos, após a visualização de um qualquer filme de Chaplin, a época e a vida de Chaplin na altura em que o fez. E sempre recheado com materiais de arquivo inéditos e documentários excelentes (em «O Circo» com um documentário da série «Chaplin Hoje» com a participação de Emir Kusturica) mostram que a MK2 é uma editora que se pautava pelo respeito dos filmes que editava e do não querer apenas lançá-los para o mercado sem mais nem menos. Muitas distribuidoras lusas também deveriam aprender assim a respeitar o consumidor... 

 Nota: * * * * 1/2

1 comentário:

  1. É de facto uma obra-prima e, como foi bem dito, passível de constar no Plano Nacional de Cinema.

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