Ninguém Conhece Jack


A morte clinicamente assistida teve, tem e terá sempre o seu quê de polémica e de controvérsia, tanto pelas questões que levanta como com o verdadeiro propósito que pretende defender e que muitas pessoas tendem a não querer entender. Mas uma coisa é certa: sobre os casos que envolvem esta temática, ninguém consegue deixar um estado de indiferença...

Jack Kervorkian (mais conhecido como «Dr. Death») foi a primeira pessoa a, publicamente e sem receios, defender a legalização da eutanásia nos Estados Unidos da América, auxiliando mais de cento e trinta pessoas em fase terminal a morrerem de uma forma mais digna e descansada. A audácia e coragem deste médico levou a que fosse variadas vezes acusado de homicídio e tendo sido julgado por cinco vezes distintas e por cinco casos diferentes. A sua convicção e os seus ideais levaram a que fosse, no último julgamento, condenado à prisão, tendo estado preso cerca de oito anos, até ao ano de 2007. E no meio de tanta mixórdia de opiniões e de perspetivas do trabalho de Kervorkian, a HBO decidiu (e bem!) passar a sua vida para um telefilme (que tem mais de cinema que muito filme propriamente dito a estrear em sala, diga-se), protagonizado pelo mestre Al Pacino, que entra no seu papel de uma forma excelente e impressionante e que foi galardoada, justamente, com um Emmy e um Globo de Ouro. O argumento do telefilme foi também premiado e, depois de ter acabado de ver esta peça televisiva de grande qualidade, fiquei muito impressionado (ainda mais do que já estava) com a excelência e preocupação com que a HBO trata os seus conteúdos (um exemplo para muitas televisões europeias, afirmo!).

Gosto de filmes e de histórias de vida que nos deixam a questionar sobre certos temas. «Ninguém Conhece Jack» lançou-me num pequeno debate interno sobre as problemáticas do filme e que Kervorkian tanto defendia e promulgava. De um lado, tinha os seus apoiantes, e de outro, os fanáticos religiosos (que, ao que me parece - e como é muito comum nos EUA - confundem crenças com opiniões próprias - daí o grande problema das religiões, e que levou à criação de tantos problemas, não é das suas ideologias, mas de parte dos indivíduos que acreditam nelas e que as percebem ao contrário) que queriam desvanecer completamente a mente e os casos efetuados pelo médico (o que contraria um pouco do que a religião defende, mas enfim, aí está a ironia da Humanidade...). 

No meio de tanta polémica e de tanto sarilho, Kervorkian conseguiu impôr as suas ideias e mudar um pouco o estado das coisas, embora haja ainda muito fanatismo e ignorância no que toca a estas matérias. Na minha opinião, penso que a decisão está na pessoa: se decide terminar a sua vida e terminar com o seu sofrimento a pessoa é que sabe. Cada um, nessas situações, deve fazer o melhor por si (e para os seus, também). E concordo com o trabalho de Jack Kervorkian e penso que é, de facto, uma personalidade a ser recordada e seguida como um exemplo. E o telefilme da HBO consegue, na perfeição, fazer isso, sem necessitar de o "heroicizar" ou de o tornar um grande super-herói, onde toda a gente à volta é o grupo dos "bad guys". É uma produção muito bem feita, escrita e interpretada, e que - repito - deveria ser um exemplo para muita produção cinematográfica, que apenas se consegue impôr graças a bilhetes mais caros devido ao 3D ou a efeitos especiais do mais dispendioso que há. O melhor material ainda está na simplicidade e na história de pessoas reais (ou em ficções repletas de realidade e humanidade), e a HBO consegue mostrar isso neste grande trabalho que efetuou com «Ninguém Conhece Jack».

Nota: * * * * 1/2

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