Mafioso Quanto Baste...


«Mafioso quanto baste...» é um título que figurará, muito provavelmente, numa hipotética lista das piores traduções para português alguma vez feita para um filme. Só o título faz parecer que o filme não interessa, e as pessoas que só se dão ao trabalho de ler as palavras grandes das caixas dos DVD's (sem se informarem mais sobre o mesmo - há a informação da contracapa, caramba!), muito provavelmente, nâo se interessarão nem investirão no visionamento deste, que, já agora, tem o título original de «Find Me Guilty» (a sério? Custava passar isto para português? «Considerem-me Culpado»? OK...). Contudo, peguei no filme e acho que fiz um bom investimento de duas horas do meu tempo livre. 

Este filme constitui o penúltimo trabalho do mítico realizador Sidney Lumet, responsável por obras tão conceituadas e amadas como «Serpico», «Um Dia de Cão» e «Network - Escândalo na TV». Com o visionamento destes filmes, conseguimos perceber a especialidade do realizador: a abordagem de temas muito reais e que transcendem qualquer época, filmando a ficção de uma forma pura e dura, sem qualquer floreado sentimental ou lamechas. E em «Mafioso Quanto Baste...», Lumet continuou a preservar o seu legado e a sua visão muito contemporânea da Sétima Arte, através de uma história verídica sobre a máfia e "Fat Jack" DiNorscio (interpretado por um muito surpreendente Vin Diesel, que tem no filme um papelão), um bandido desse núcleo que, num julgamento a muitos membros de uma organização mafiosa, decidiu fazer de seu próprio advogado para conseguir defender-se e não arriscar apanhar uma pena maior que a que foi condenado. 

Gostei muito do filme, sinceramente. Apesar de ter sido mediamente recebido, acho que não se pode achar que foi tempo perdido ver «Mafioso Quanto Baste...», porque é quase um documento histórico. As cenas passadas no tribunal (ou seja, os julgamentos aos mafiosos todos) contêm, maioritariamente, diálogos retirados do que na realidade foi dito naquelas sessões. O próprio filme é filmado numa espécie de género documental. Ao vermos a forma como foi filmado «Mafioso Quanto Baste...», podemos mesmo pensar que se trata de um verdadeiro documentário, de tão realista que é (mas as cenas ficcionais fazem-nos sair dessa momentânea ilusão). Sidney Lumet utiliza, assim, um estilo algo diferente do que utilizou nos seus filmes mais célebres (alguns dos quais fiz referência há pouco), não dando à ação um teor mais dinâmico e rápido, mas que condiz com a história e ambiente da mesma. 

Acho importante referir duas coisas que retirei do filme e que achei essenciais para a compreensão do mesmo: primeiro, o apreço que os mafiosos têm pela sua família. E isso é de valor, mesmo se se tratarem dos maiores assassinos deste planeta. Mas a família está ali, acima de tudo. Até mostra que estes bandidos até têm sentimentos e não são só homens obcecados em pegar na arma e dar tiros a qualquer inimigo que lhes apareça. Segundo, o filme mostra também como nem sempre a justiça segue o caminho mais... justo. E isto mesmo depois de dois anos de julgamento, centenas de provas e muitas testemunhas consultadas. Para mim iam todos presos, mas é a vida, não se pode pedir tudo (e isto é passado, não vou estar preocupado com isto - até porque estes criminosos todos já estão septuagenários ou já partiram deste mundo). Este julgamento pode assemelhar-se ao que se sucedeu em Nuremberga, depois da II Guerra Mundial. Apanharam os criminosos em massa, mas o julgamento dos mafiosos (contrariamente ao dos nazis) não teve o final mais, digamos, "esperado". 

«Mafioso Quando Baste...» é um grande filme, sobre a Máfia (e quão complexo este sub-mundo é), a justiça, a lealdade que temos uns com os outros e as decisões que tomamos ao longo da nossa vida. Não é o melhor trabalho de Sidney Lumet, mas tem o mesmo interesse histórico e social que todos os outros filmes do realizador que já tive o prazer de ver. 

 Nota: * * * * 1/2

Comentários