quinta-feira, 27 de setembro de 2012

J. Edgar


O regresso aos "affaires" estudantis e à azáfama do dia a dia não me tem permitido dispender o tempo necessário para praticar dois dos meus maiores hobbys: ver filmes e escrevinhar qualquer coisa sobre eles.  Mas publico agora a crítica a «J. Edgar», que vi há mais de uma semana. Mais vale tarde do que nunca...
«J. Edgar», realizado por Clint Eastwood e protagonizado por Leonardo DiCaprio, é um filme biográfico sobre um dos homens mais populares e simbólicos da América, J. Edgar Hoover, que foi, para os mais distraídos, o diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI) durante quase cinquenta anos. E porque é que Hoover é uma figura icónica da cultura vinda dos EUA? Na minha humilde e simplória opinião, uma das duas razões para essa fama de J. Edgar (a outra explicarei um pouco mais à frente) é o facto de ter sido sempre uma figura misteriosa e extravagantemente interessante para o público (e especuladores da sua vida, que à volta dela criaram milhentas teorias) e cuja lenda deixou viva mesmo depois da sua morte e que sobreviveu até aos nossos dias (daí a razão para se fazer este biopic). Aliás, a vida de Hoover é tão rica que caber tudo o que é essencial num filme com pouco mais de duas horas é obra. E «J. Edgar» consegue captar muita coisa interessante sobre este homem, misturando alguns temas controversos e pouco consensuais que envolvem os ditos mistérios Hooverianos (como por exemplo, a verdadeira orientação sexual do diretor do FBI). «J. Edgar» capta também, de uma forma soberba, o pensamento e perspetiva de vida de Hoover, de uma maneira extremamente forte e intrincada.

E Clint Eastwood e a sua equipa conseguiram pegar nos mitos da vida de Hoover e no que realmente aconteceu, e fizeram uma obra que homenageia perfeitamente o biografado. Não é, talvez, dos melhores filmes realizados por Eastwood nos últimos anos, mas é uma boa fita, bem construída, bem pensada, com uma fotografia típica dos filmes Eastwoodianos (e que da qual fiquei completamente fã!), com grandes interpretações (DiCaprio, a meu ver, teria merecido uma nomeação ao Oscar, já que este é um dos seus mais bem conseguidos e detalhados papéis) e que se vê bem. Mais: é um filme que nos faz interessar por saber mais coisas sobre Hoover (é esse o objetivo de um filme sobre a vida de alguém, obviamente, mas são poucos os biopics que nos fazem ter interesse para a descoberta de mais detalhes sobre o protagonista), sendo um verdadeiro documento da(s) época(s) que retrata, ao máximo pormenor, e que nos transporta mesmo para as diferentes décadas em que se desenrola a ação de «J. Edgar». 

A outra razão pela qual eu consigo explicar, na minha cabecinha, o sucesso planetário da figura de J. Edgar Hoover é a de a vida do mesmo passar vários acontecimentos importantes da História dos EUA. Muitas figuras míticas da América estão associadas, por boas ou más razões, à figura de Hoover. Charlie Chaplin, por exemplo (um caso que gostaria de ter visto retratado neste biopic, é pena que tenha sido descartado...) viu-se obrigado a "fugir" do país que lhe deu a fama e glória a nível mundial pelas suspeitas algo fanáticas e pouco verdadeiras de Hoover e da malta do FBI de que o Grande Génio da Sétima Arte estava ligado a atividades comunistas feitas por americanos. Mas não foi só Chaplin: foram várias as personalidades que, na época da caça às bruxas e do McCarthyismo, se viram metidas em sarilhos com o FBI e viram as suas vidas a tomar rumos que nunca tinham imaginado que pudessem acontecer. Os irmãos Kennedy (o John e o Bobby), caso que foi inteligentemente retratado no filme, também estiveram envolvidos em problemas com o senhor Hoover. E houve muitas, muitas outras figuras, e de que o filme apenas dá alguns exemplos, mas os suficientes para conseguirem exemplificar os métodos e ideologias anti-comunistas de Hoover. Há também espaço para as coisas boas que Hoover trouxe para o mundo da investigação, como a identificação por impressão digital, por exemplo. Fala-se depois do egocentrismo de Hoover em querer assumir a solução de todos os seus casos como seus (tornando-se numa espécie de super-herói para a miudagem da época) e por fim, há as tais referências aos assuntos polémicos (a homossexualidade de Hoover e os diversos tiques psicóticos - que fazem lembrar, em parte, Howard Hughes, personagem também, ironicamente, interpretada por DiCaprio em «O Aviador» de Martin Scorsese) e que são abordados de uma maneira séria e não como se fossem fofoquices para achincalhar os espetadores. Clint Eastwood respeita os seus seguidores, e bem!

Resumindo e concluindo, «J. Edgar» é uma boa peça na carreira de Eastwood e DiCaprio. É um filme fluído, um bom (e mais fidedigno) documento sobre a vida de Hoover, e que não pode deixar ninguém indiferente, devido à sua qualidade como obra cinematográfica e como acompanhamento para as aulas de História, para ajudar a compreender aquela época em que Hoover viveu e se popularizou, tornando-se até hoje numa figura de culto e de estudo de diversos historiadores e curiosos em todos os cantos do mundo. Este filme conseguiu ser competente no seu trabalho, e apesar de não ser um filme de qualidade mais elevada no historial de realizações de Clint Eastwood, vale a pena a sua visualização, quer para se compreender um homem nada consensual, quer para se compreender a mentalidade de uma América (um pouco) mais conservadora e fanática que nos nossos dias.

Nota: * * * *

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