segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Como Irritar Uma Pessoa - Um guia cómico para as idiotices do quotidiano

Naquele tempo, disse o apresentador de TV e produtor David Frost aos seus argumentistas: "façai um especial televisivo de comédia com uma hora de duração, que será produzido por mim mesmo, para que seja posto na prateleira, nunca exibido na BBC, para conseguirmos promover o nosso humor junto dos americanos, mas que será apenas realmente descoberto por nerds e fãs obscuros de um certo grupo humorístico (que alguns de vós, que irão participar neste programa, irão fazer parte) daqui a uns trinta anos!". Assim foi feito um programa que me deu muito júbilo de ver. E porque é que me apeteceu escrever a primeira frase deste post de uma maneira recriativa das Escrituras Bíblicas? Não sei, acho que não consegui arranjar outra maneira melhor para dar início a esta minha apreciação crítica de «Como Irritar Uma Pessoa». E acho que a história que rodeia a feitura deste especial televisivo tem muito que se lhe diga. Não é de uma complexidade tão grande como a maioria dos episódios descritos nos múltiplos livros do Antigo e Novo Testamentos, mas até que dava para fazer umas quantas páginas sobre a mesma, disso não tenho dúvidas (umas dez no máximo, vá. Oito são a bibliografia. E uma é o índice. Ah, e depois resta a capa). 

Senão vejamos: Depois de feito o lendário programa «The Frost Report» (cujo estatuto é muito mais superior do que a dignidade da BBC, já que não quis guardar nos seus arquivos muitas pérolas dos anos 60 e 70 da televisão britânica - daí o facto de, hoje em dia, existirem muito poucos episódios da quantidade total que teve esta série), o senhor cujo apelido dava título ao mesmo decidiu apostar na valorização da comédia britânica em terras do Tio Sam com este especial de uma hora, que reunia alguns atores/autores do «Report» (como John Cleese e Graham Chapman), juntando uma estrela de «Do Not Adjust Your Set» (Michael Palin) - um programa que também foi muito mal tratado pelas pessoas que ficaram encarregues de guardar as bobines do mesmo - e um dos atores de «At Last the 1948 Show» (Tim Brooke-Taylor), onde também participaram Cleese e Chapman. O programa ganhou a premissa de ser um guia (cómico) para ajudar as pessoas a irritar os outros. Uma espécie de "workshop" da irritação, em que uma série de sketches parodiavam diversas situações muito pormenorizadas do quotidiano, em que a capacidade de irritar o próximo é o denominador comum. O resultado é um clássico da comédia (e não estou a copiar o slogan do DVD, mas sim a constatar algo que pensei quando acabei de ver este programa).

«Como Irritar Uma Pessoa» foi exibido, discretamente, nos EUA, e rapidamente caído no esquecimento. Nunca foi transmitido em Terras de Sua Majestade, e teria-se de esperar pelos anos 90 para este especial ressurgir no mercado home video (na altura em cassete, e mais tarde em DVD). E é um grande programa, que, tal como maior parte do material material para a caixinha mágica em que John Cleese, Graham Chapman e Michael Palin estiveram envolvidos na sua produção. E muitos sketches do mesmo foram usados para recriações (mais desenvolvidas e melhor construídas) na série «Monty Python's Flying Circus», que invadiria os ecrãs dos lares ingleses em Outubro de 1969. O maior exemplo disso é o sketch da entrevista de emprego, usado mais tarde, na sua totalidade, para uma abordagem mais "nonsensiana" dos Python. Há também a influência do sketch do reparador de automóveis, que foi, com certeza, a ideia que deu origem a um dos mais famosos sketches da era Python, o Papagaio Morto.

Acho que nada mais posso dizer. Apenas que ver os 68 minutos deste programa foi uma delícia, e acho que vale muito a pena os fãs dos Monty Python (e do humor britânico em geral) verem «Como Irritar Uma Pessoa». Os maiores fãs dos Python encontrarão muitos "piscares d'olho" ao material humorístico do grupo que já conhecem, certamente, de trás para a frente, e ninguém poderá ficar dececionado com este programa. E mais ainda, acho que todos nós nos conseguimos identificar com, pelo menos, uma das situações apresentadas por Cleese e os seus compinchas. É o que comprova a frescura e atualidade desta pérola da televisão britânica!

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