Balas e Bolinhos: um blockbuster tuga

Quando se deu o início da promoção ao terceiro capítulo da trilogia cinematográfica tuga «Balas e Bolinhos» em diversas formas de marketing (internet, televisão, cartazes, etc), pensei que estava na altura de me embrenhar neste universo mítico do cinema português (e que espero que, por todos os santinhos!, seja mais rentável que o filme dos Morangos com Açúcar) e ver os dois primeiros filmes que constituem esta saga épica da sétima arte lusa onde estão envolvidos indivíduos algo duvidosos, crimes do maior gabarito nortenho e bolinhos de bacalhau. Qual não foi o meu espanto e, como se fosse telepatia, vi que a SIC Radical ia transmitir, a altas horas da noite (porque, propriamente, «Balas e Bolinhos» não é para ser visto à hora em que aquele duende 3D substituto dos Patinhos está a mandar a criançada para a cama na RTP2), estas duas obras que constituíram, segundo a crítica do mais alto gabarito nacional, "o primeiro OVNI do cinema português". Como a essas horas estou no mundo do soninho (ou quando a insónia aperta - para contentar as pessoas que têm uma visão de mim algo semelhante a uma versão portuguesa do «Comic Book Guy» dos Simpsons, embora com menos peso - estou a beber um copinho de leite morninho para acalmar os nervos), gravei os filmes, e alguns dias depois vi-os praticamente de seguida (porque o primeiro tem uma hora de duração e o segundo hora e meia).

E, depois de vistos os dois filmes, que dizer sobre eles? Bem, primeiro, achei por bem juntar as minhas recensões críticas a cada um num único post, até para poder comparar a evolução criativa e financeira que houve entre os três anos que separaram a feitura dos dois. Segundo, tenho medo das palavras que escreverei aqui sobre «Balas e Bolinhos» e «Balas e Bolinhos: O Regresso». Não sei se conseguirei encontrar as frases certas para descrever os filmes, porque fiquei com uma opinião muito peculiar sobre os mesmos. Mas vamos lá tentar escrevinhar qualquer coisa, que quem não arrisca não petisca.

Falemos do primeiro, a ver no que é que isto vai dar: está mal escrito, está mal interpretado (mas os atores conseguem ter graça), está concebido de uma maneira muito amadora e despreocupada com diversos pormenores que não fazem sentido e que revelam uma grande falta de cuidado na realização do filme. Mas, ao contrário de muitos outros filmes que, com estas características, não me teriam conseguido fazer ver os mesmos até ao fim, este tive todo o gosto em ver. E aí está a diferença entre «Balas e Bolinhos» e todos os outros filmes maus de baixo orçamento: é que este deu gozo ver! E isso foi algo que achei inacreditável. Embora o filme fosse mal planeado, e pudesse ter sido reduzido a uma curta metragem de um quarto de hora, e apesar de não ter mudado a minha opinião de que estava a ver um mau filme até chegar ao fim do mesmo, não pude deixar de pensar que gostei de o ver, e que foi algo único que me passou diante dos olhos. E achei isto tão estranho, mas tão estranho... que ainda tenho remorsos em relação ao que escrevi até agora. E atenção: isto é apenas a minha opinião. Respeito todo o trabalho que esteve envolvido no filme (aliás, respeito o elenco e a produção cada vez mais), e repito: não sei porquê, mas gostei de ver o filme. Levei a mão à cara várias vezes com as "atrocidades" que encontrava, mas não conseguia parar de ver o filme, e a curiosidade tornava-se cada vez maior à medida que se aproximava a altura em que os quatro maltrapilhos iam preparar o "grande" golpe das suas vidas. E Luís Ismael, realizador, autor e o Tóne do filme, mostra ter uma grande paixão pelo cinema, tanto pelas referências a obras de culto do cinema que são feitas pelas personagens (veja-se a paródia ao discurso de Samuel L. Jackson em «Pulp Fiction»), como também pelo facto de, apesar de ter sido confrontado com muitas limitações orçamentais e técnicas para a rodagem do seu projeto, conseguiu fazer um filme que, apesar de mal feito, é bom de se ver. E isto muitos filmes com investimentos superiores a números com mais de nove dígitos conseguem fazer. Há entretenimento do bom em «Balas e Bolinhos», e sendo um filme português, feito por portugueses, é de louvar! Ah, e fiquei simpatizante com essas bizarras (mas muito reais) personagens que dão pelo nome de Tóne, Culatra, Rato e Bino, e que, ao contrário do que aconteceria se tivesse visto o «Scary Movie» (nunca vi um inteiro nem quero, pura e simplesmente), fiquei com uma vontade enorme de ver a sequela. E assim o fiz, logo de imediato.

«Balas e Bolinhos: O Regresso» mostra uma certa evolução em relação ao primeiro filme, mais experimental e com menos dinheiro para a sua feitura. A história está mais desenvolvida, há outras referências cinematográficas («Salteadores da Arca Perdida», por exemplo), há mais gargalhadas, há vilões (um deles - penso que seja de propósito - faz-me lembrar um dos "bad guys" do princípio da obra prima Leoniana «Aconteceu no Oeste»), há "special guest stars" (como o contador de anedotas Fernando Rocha), uma realização e um trabalho mais cuidado e preciso (houve mais meios para este segundo filme do "franchise"- chamemos-lhe assim, porque a dimensão desta saga dá razões para a mesma receber este epíteto) e o mesmo palavreado nortenho. Voltam as mesmas personagens, alguns anos depois do final do primeiro filme. Todos seguiram caminhos diferentes (nenhum minimamente aconselhável para qualquer ser humano), e agora está envolvido um mapa do tesouro que fará o grupo reunir-se de novo e partir à aventura, como se fossem os «Cinco», mas sem o cão (apesar do Bino ter quase o mesmo papel no filme que o Tim, o cão da miúda maria-rapaz da famosa coleção juvenil de Enid Blyton). O resultado é um filme também muito bom de se ver mas que, apesar de ser melhor que o primeiro, «O Regresso» é ainda mauzinho. Mas a caminhar para o razoável. Muito perto desse escalão, mesmo. E foi mais uma visualização que passou rapidamente e que gostei muito de fazer. É estranho uma pessoa ficar fã de uma saga tão... tão... tão contra aquilo que eu designo como "cinema de qualidade", mas gaita!, quero ver o terceiro!

(P.S - Não sei se repararam, mas desta vez não classifiquei estes filmes com a habitual escala das estrelinhas. Acho que, em casos como estes «Balas» não acharia muito justo estar a dar-lhes nota, apesar de saber mais ou menos a que daria a cada um deles. Talvez muito pelo facto de serem filmes fraquinhos mas que dão muito gozo de se ver - também depende dos estômagos, é claro - acho que mais vale deixar assim, sem nota, e quem tiver curiosidade, veja os filmes e tire os seus juízos de valor. É que as estrelinhas podem ser sinal de filmes a ver e a não ver. «Balas e Bolinhos», apesar de ser mau, é para ver! Vamos mas é apoiar filmes como estes, que pretendem levantar a moral cinematográfica lusa e mostrar que filmes altamente rentáveis podem ser feitos em Portugal!)

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