À Espera de um Milagre




Enquanto estava a ver «À Espera de um Milagre» conseguia aperceber-me do quão importante aquele filme estava a ser para mim. Tornou-se numa daquelas experiências cinematográficas cuja essência e perspetiva das coisas me marcou de uma maneira assustadora, e agora este filme está na minha lista de favoritos. Para uns, há o «Era Uma Vez na América», para outros, «O Padrinho». E para mim, são esses dois, mais uns cinquenta filmes, e agora junta-se à lista este, que é sem dúvida uma grande e excelente surpresa. 

Um dos grandes trunfos desta fita realizada e escrita Frank Darabont (cuja feitura se seguiu, poucos anos depois, ao do celebérrimo «Os Condenados de Shawshank», que tal como «À Espera de um Milagre», se baseia numa obra de Stephen King, um dos mais admirados escritores norte-americanos das últimas décadas - e que faz parte também do grupo de autores com um número de obras tremendamente elevado a ser alvo de adaptações cinematográficas, diga-se) é que nos consegue envolver na sua história e suas personagens (principais, secundárias e figurantes) de uma maneira inacreditável. É incrível que, se esta história tivesse sido feita por outro realizador de uma maneira muito semelhante à usada por Darabont, o filme seria banal e o seu drama poderia ser insuportável. Mas isso não aconteceu comigo. Não consegui parar por um instante de ver «À Espera de um Milagre» e fui-me apercebendo de toda a qualidade do filme que perdi nos últimos anos. 

É que eu já tinha começado a ver o filme uma vez, quando ainda não tinha a idade mínima aconselhável para a sua visualização. Ainda se usava cá por casa o gravador de VHS e numa noite, a RTP decidiu transmitir o filme. Pus a gravar mas, esperto como era (e que ainda sou, infelizmente) a gravação ficou até metade (gaita, tinha-me esquecido dos intervalos!), e da hora e picos que vi do filme, fiquei absolutamente siderado. E chegando a uma das cenas mais fortes de «À Espera de um Milagre», ups... a fita acabou. Ironicamente, há poucos meses (Março, segundo as informações da box) a RTP decidiu voltar a (re-re-re-re-re-re) retransmitir esta obra, e com as melhores condições que a televisão digital pode fornecer, o filme ficou guardado no gravador por uns meses. A recente morte de Michael Clarke Duncan (o milagroso e misterioso Charles Coffey do filme) relembrou-me do visionamento que tinha deixado a metade devido às limitações dequela outra época (nada distante). E que bem que o fiz, porque além de ter sentido as mesmas coisas (ou mais até!) com a parte do filme que já tinha visto e que me recordava (que sensação de dejá vu...), todo o filme me marcou e não vai sair da minha cabeça. Senti que estava a ver o melhor que o cinema americano pode oferecer: um verdadeiro clássico moderno, bem pensado e quase a chegar à perfeição divina (ironicamente, de divino é uma das coisas que mais se fala em «À Espera de um Milagre», logo a começar pelo título tuga da fita). Podem considerar-me um reles apreciador de cinema de massas, mas não percebo qual é o mal. O que interessa é que, apesar de ser um filme comercial, é um ótimo filme! E essa qualidade nenhum orçamento ou receita de bilheteira, por maior que seja, não pode alterar. 

«À Espera de um Milagre» é uma história sobre a amizade, a divindade e os milagres desta nossa existência (fictícios ou nem tanto), podendo ser visto também como uma crítica à falta de valores e de solidariedade que é cada vez mais acentuada nos seres humanos. O filme utiliza um tempo algo distante (muuuito mais distante que a altura em que o VHS ainda era uma das ferramentas essenciais deste nosso lar) para ilustrar atitudes que hoje já não existem, devido ou a uma mudança de leis na sociedade ou aos interesses dos grandes grupos económicos. Situada numa penitenciária, de nome Cold Mountain, onde um quarteto de polícias (liderados por um fantástico Tom Hanks) e um choninhas que se acha mais que os outros devido a conhecer pessoas "lá de cima", lidam com diversos condenados à morte (causada pela dramática tortura da cadeira elétrica) que são enviados para a prisão. Entre pessoas com mais ou menos problemas mentais e mais ou menos bizarras, surgem personagens marcantes e inigualáveis e, entre elas, um homem chamado John Coffey e que, a pouco e pouco, irá mudar a vida daquele grupo de polícias. 

 Sim, vista desta maneira, a história do filme força mesmo o sentimento mais... sensível do espetador e, por ventura, a queda de uma ou outra lágrimazita acidental em certas cenas, mas este não é um drama... dramático qualquer. «À Espera de um Milagre» é uma grande ode à vida e ao bom cinema, que se destaca pela excelência quer na mise-en-scène (oh p'ra mim a usar termos franceses nestas críticas!) de Frank Darabont como no argumento escrito pelo próprio, passando pela extraordinária atuação de todo um elenco de luxo e de elevada qualidade e culminando numa fantástica banda sonora que, conjugada com os outros elementos, faz uma combinação única e que, aos mais sensíveis, poderá causar o tal choro não propositado (vá, eu admito, também deitei umas lágrimas em algumas partes da história do filme. Agora confessem também!). Mas «À Espera de um Milagre» é, além de um filme que nos faz sentir muita coisa ao mesmo tempo, uma poderosa obra que nos faz refletir sobre a nossa existência no mundo e o nosso papel enquanto parte de uma sociedade, de um país e por aí fora. Frank Darabont acertou na "muche" com «À Espera de um Milagre», uma obra única e inconfundível, que nos faz sonhar e querer acreditar que podemos mudar o mundo para melhor. 

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EDIT 02-03-2015 - Eh pá, que badalhoquice de texto é esta? Que vergonha... deveria apagar isto do mundo da web? Provavelmente. Mas devo ter um lado masoquista qualquer que me impede de pôr essa acção em prática.

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