sábado, 18 de agosto de 2012

Casamento Escandaloso



A década de 40 foi uma década "dourada" para a comédia cinematográfica norte-americana sofisticada. Um género de filme que, ao contrário de muitas fitas que por hoje circulam e que se assumem como comédia (mas que, se formos a ver bem, olhar para uma parede durante horas a fio poderá causar-nos muito mais gargalhadas do que a visualização de escassos minutos desses filmes), mostrava-se singular pelas histórias apresentadas, pelas personagens e pelos atores que as interpretavam. Foi uma época de glória para a farsa (a comédia de enganos), para a sátira social e para a crítica de costumes dos seres humanos, sem qualquer tipo de distinção. 

«Casamento Escandaloso», um filme realizado por George Cukor e que conta com as interpretações de Katharine Hepburn, Cary Grant e James Stewart, é um dos grandes exemplos do melhor que se fez em termos cinematográficos nos EUA durante esse período de sucesso para o país, e é tido como uma das melhores comédias de sempre. E não é para menos: «Casamento Escandaloso» tem tudo para bater certo e funcionar para qualquer tipo de espetador e para todos os gostos cinéfilos. A história não é muito elaborada, mas é impossível não conseguir ver o filme até ao fim. Apesar de ter tido logo uma larga suspeita de como toda aquela encrenca iria acabar, o que é facto é que não consegui desligar o televisor nem parar de ver o filme. E penso que é desta matéria que são feitos os grandes filmes, que não valem apenas pelo final ou por uma ou outra cena estrondosamente popular (uma popularidade que, muitas vezes, é levada à exaustão) e que obriga a visualização do seu filme só para sentirmos aquele dejá-vu na parte em que ouvimos a personagem a dizer a frase que todos sabemos de cor. «Casamento Escandaloso» vale pelo seu todo, pelo conjunto de ingredientes que foram precisos juntar para a sua feitura: uma peça de teatro que resulta tão bem no grande ecrã como no palco, um grande elenco de atores soberbos (cujas interpretações, perdoem-me o saudosismo, já não se "fazem" hoje em dia...), um realizador que está à altura do argumento do filme e a fórmula do melhor entretenimento que a América tem proporcionado a várias gerações de espetadores.

Mas o que mais gostei em «Casamento Escandaloso» foi mesmo o seu argumento, e que tem de ser merecidamente destacado (embora, volte a repetir, todos os outros "componentes" do filme funcionam perfeitamente). Aqueles diálogos, repletos de ironia e piadas inteligentes que soam tão bem hoje como soavam há mais de setenta anos, quando o filme estreou (e que são a principal causa, na minha opinião, da grande graça deste filme) têm de ser atentamente escutados (e lidos nas legendas, se necessário). É um argumento que está muito bem escrito e que mostra a complexidade linguística das personagens do filme, que nunca deixam de ser, ao longo de toda a duração do mesmo, portentoras de grandes doses de credibilidade e de humanidade.

Por fim, deixo um apelo: seria bom que as pessoas voltassem a ver estes clássicos (que têm passado, ultimamente, com mais regularidade nas televisões, algo que é de louvar) e não os deixassem cair no esquecimento. «Casamento Escandaloso» nem tem razões de queixa porque é até um filme que tem sido muito acarinhado pelo público nos últimos anos, mas mesmo assim, se puderem, vejam clássicos deste calibre. Recordam uma época diferente da nossa, mas que, contudo, não deixa de ter grandes parecenças com a atualidade... 

Nota: * * * * 1/2

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