A Sombra do Caçador


Aviso: pela primeira vez na vida, publico no blog uma crítica com spoilers - dados desmancha-prazeres que podem estragar a visualização de um filme. Por isso, se não quiserem ser incomodados (e bem!) por estes spoilers, queiram fazer o favor de não lerem o segundo e o terceiro parágrafo e o «exemplo» do quarto parágrafo deste texto. Estava a pensar cortar este texto, visto que foi pensado para o fórum «Gato Malhado», onde me pediram que fizesse algumas críticas mais extensas (que incluam, lá está, spoilers) aos melhores filmes que vou vendo. Aliás, a primeira dessas críticas foi «O Terceiro Homem», que sofreu um corte significativo, mas que não estragou o texto em si. Neste caso (que é o meu segundo "trabalho", ao nível destas críticas mais longas), decidi deixar a crítica na sua versão integral para evitar que houvessem partes soltas sem sentido (que é o que eu penso que aconteceria se procedesse à "censura"). Garanto que não volto a "spoilar" em tempos futuros, 'tá bom? Obrigado pela vossa atenção e boa leitura!

«A Sombra do Caçador» é outro filme que faz parte da lista das obras-primas inimitáveis e inigualáveis da História da Sétima Arte. Teve tudo para resultar, e apesar de, na época em que estreou, ter passado despercebido tanto pelo público como pela crítica (situação que ocorreu a muitos outros clássicos do cinema), todos agradecemos que alguém se tenha lembrado de fazer este filme, senão, hoje em dia esta grande peça histórica e cultural da Humanidade nunca teria existido. Foram precisos alguns anos para «A Sombra do Caçador» ser merecidamente reconhecida e ser justamente considerado um dos melhores filmes de sempre do Cinema Americano, mas melhor assim do que se tivesse perdido no tempo.  

Mas vejamos bem o que temos em mãos: ora, há Harry Powell (interpretado por um fantástico Robert Mitchum), um padre fanático, que acredita mais na condenação das almas do que na salvação das mesmas (e, quando digo condenação, a dita é feita pelas mãos do próprio indivíduo), e que tem, em cada mão, tatuadas as palavras "Amor" e "Ódio" (a cena em que Powell explica o porquê de ter estas duas palavras impressas nos seus dedos é memorável e uma das melhores do filme). Entretanto, Ben Harper, um homem casado e Pai de dois filhos, é condenado à morte, e encontra-se atrás das grades na mesma altura em que Powell foi apanhado a tentar cometer mais um dos seus crimes fanáticos. Depois do dito indivíduo morrer devido ao crime que cometeu, Powell decide apoderar-se do dinheiro que aquele deixara aos seus filhos, tentando entrar dentro da comunidade em que estão inseridos e conquistando a Mãe das duas crianças (John Harper e Pearl Harper), tornando-se o Pai adotivo delas e tornando a mulher num protótipo do fanatismo pregado por ele próprio. Os dois meninos tornam-se o alvo preferido de Harry Powell (pois só eles sabem onde é que os dez mil dólares do Pai estão escondidos) e, apesar da filha começar a gostar do senhor Powell, o filho desconfia sempre das intenções do padreco, tentando descobrir, afinal, o que é que aquele tipo anda ali a fazer. E em que é que tudo isto vai dar? Poderia ser num final semelhante a qualquer novela mexicana ou portuguesa, mas disto tudo resulta uma verdadeira obra de arte.

Gostava de salientar que, apesar de ser a personagem mais famosa do filme (sendo a ela que deve grande parte do seu prestígio), não é em Powell que a ação do mesmo se centra, mas sim em John Harper. O filme centra-se mais nos pensamentos do pequeno rapaz e nas formas que ele planeia para se livrar de Powell, e na sua forma de ver as coisas e de querer continuar a sua vida sem ter aquele homem por perto a tentar apoderar-se do seu dinheiro. Mas é interessante ver o filme desta perspetiva se nos lembrarmos de uma das cenas decisivas da história do filme, quando Harry Powell é (finalmente!) apanhado pela polícia: o pequeno John entra em desespero, e pela primeira vez, chama Powell de Pai (tinha recusado a considerá-lo como tal até àquela altura). O momento é dramático, e percebemos a confusão que vai na mente daquela criança, quando grita, a chorar, para Powell, magoado e caído no chão, que tome o dinheiro que causou tantos problemas: "Here! Here! Take it back. Take it back. I don't want it. It's too much. Here! Here!"

A realização de Charles Laughton (um ator de cinema que, depois deste, não realizou mais nenhum filme - talvez devido ao insucesso na época que obteve «A Sombra do Caçador») pega em todos os pormenores da história do filme para nos dar um visionamento de rara beleza e que aproveita todas as potencialidades do preto e branco e do film-noir. Veja-se, por exemplo, a cena em que as duas crianças fogem, num barco, do (nessa altura, temível) Harry Powell. Apesar das crianças sentirem muito medo de caírem nas garras do terrível Padre, Laughton aproveita para filmar a beleza do ambiente que rodeia o lago onde os meninos estão a viajar. Vemos os animaizinhos, os coelhinhos fofinhos... por momentos até nos esquecemos que aqueles dois pirralhos estão a fugir de um psicopata maluco e fanático... mas depois voltamos à realidade.

«A Sombra do Caçador» é também um filme que vai tirar muitas características técnicas e visuais ao Expressionismo Alemão dos Anos 20. É outra constante que podemos observar em muitas cenas do filme (praticamente as que mostram que ou os miúdos estão em sarilhos, ou que Powell está a preparar alguma) e que mostra ser uma grande "homenagem" (repito, "homenagem", não "cópia") ao que melhor se fez em termos de cinema nesse país, nessa era "doirada".

O filme contém uma extraordinária banda sonora, inconfundível, inesquecível e magistral. Composta por Walter Schumann, a música de «A Sombra do Caçador» assenta que nem uma luva à ação do filme. Schumann soube, com mestria, criar a composição ideal para todos os momentos, alegres ou tristes, que o filme mostra ao espetador. 

«A Sombra do Caçador» é um filme notável, por ser uma excelente crítica ao fanatismo religioso (que não era um tema tão debatido na época como é nos nossos dias) e ao oportunismo que inunda as relações humanas. É um filme que se tornou modelo para plágios (perdão, para outros filmes) que seguiram o mesmo género e os mesmos moldes da história, mas que felizmente, nunca conseguiram superar o original em tudo. Muito por culpa de Robert Mitchum e a sua icónica interpretação do Reverendo Harry Powell, que atingiu a verdadeira imortalidade com a participação neste filme. 

Uma nota também para destacar a eficácia desta personagem. A meu ver, uma personagem torna-se mais interessante, irreconhecível e brilhante pela subjetividade dos seus atos. Harry Powell é um exemplo disso, porque sabemos que Powell assassina todas aquelas vítimas, mas não vemos nada acontecer. Não precisamos, porque sabemos que é a verdade (da história, claro).

Para terminar, constato que adorei o filme. Tornou-se um marco de referência para a minha cultura cinematográfica, e não é de admirar que tenha um culto tão grande por entre os cinéfilos. Era o filme preferido do próprio Robert Mitchum (um ator pertencente àquela geração do já-não-se-fazem-atores-assim), e aconselho que vejam, ou revejam, ou re-revejam! É um filme que tem muito para ser explorado e admirado, e este texto foi apenas uma tentativa (falhada) de prestar homenagem a esta obra-prima do Cinema e da Cultura Mundial. Está recheado de grandes momentos, de grandes interpretações, e ninguém pode ficar indiferente a «A Sombra do Caçador» depois de o descobrir!

Nota: * * * * * 

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