O mundo (pouco) maravilhoso e (nada) mágico da televisão

Tenho vindo a reparar que, a cada dia, vejo menos televisão. Não é que tenha perdido o hábito de ligar o botão da caixinha mágica SONY do meu quarto quase todos os dias, mas esse ato é para outra coisa: não para ver televisão (que, por causa da TDT, já não a tenho) mas para usar o DVD para ver uns filmes ou umas séries de TV (nesta semana vi os sete episódios do «Programa do Aleixo», cujos criadores tive a oportunidade de conhecer na passada terça-feira). Agora, a televisão que se entende por «estações que emitem programas segundo um dado esquema previamente estipulado», isso sim, tenho vindo a ver cada vez menos. E a culpa não é da TDT: é porque, simplesmente, grande parte dos canais de televisão (e a começar pelos generalistas, excetuando mais a RTP2, que muitas vezes sabe ir ao encontro do que eu próprio quero ver num canal como aquele) não tem programas de jeito. Exemplos: na RTP1, a única coisa que vejo é um ou outro filme, o «Estado de Graça» e quando calha, o programa do Herman. Na SIC, não vejo NADA (só mesmo quando, de cem em cem anos, os programadores se lembram de passar uma fita de jeito), e a TVI, só tive o desplante de ver o «The Office» há uns tempos, quando passava no Verão às três e pico da manhã! E os próprios canais do cabo não tem programas de "qualidade" ou interessantes para a minha pessoa! E não, não tenho migrado para a internet - acho que ver programas na internet não me conseguem captar muito a atenção, por isso prefiro para isso a TV - mas simplesmente vejo o que quero quando quero e pronto!
Tudo isto para dizer que, enquanto toda a minha família esteve ontem a ver o festival da canção, eu fui para o meu quarto ver o «Apocalypse Now: Redux» (e ainda não acabei de ver - fica para mais daqui a bocado). Achei que era uma perda de tempo tão grande estar a ver aquelas músicas (que se afirmavam como fado mas, se o Festival raramente consegue ser fiel à definição de "música", quanto mais à de "Fado"!), maior parte delas foleiras e esquecíveis, e, juntamente, a grande habilidade dos apresentadores e dos organizadores do evento em perderem tempo a encher chouriços com falatório desnecessário e a já obsoleta contagem dos votos pelas cidades de Portugal. Quando, no final, me chamaram ao quarto para irem ver a canção vencedora de novo a atuar, eu tive tempo de ir à casa de banho lavar os dentes, vestir o pijama, e quando cheguei à sala, ainda estavam a engonhar sobre quem seria o vencedor do Festival. Poupem-me!
Ao menos, este ano, até ganhou uma canção engraçadazinha. Nada da palhaçada dos Homens da Luta (que, durante um ano, a pouca consideração que eu tinha por eles baixou gradualmente), e até foi uma canção que tinha uma boa marca de Fado na sua melodia e na sua letra. Um pouco popular, é certo, mas é gira, a música.
Mas a situação do Festival é como os Oscares. Para que é que vou perder três horas da minha hora de sono a ver uma gala que, na manhã seguinte, vai ser condensada a cinco minutos em todos os telejornais nacionais (e, pensando bem, esses "condensamentos" poderiam ainda ser mais reduzidos. Para um minuto ou dois)? É uma perda de tempo, não? Eu acho que é.
OK, já constatei que a televisão é fraquinha, e que grande parte do tempo que passo a olhar para esse ecrã não é para nenhum canal generalista ou pago, mas sim para o "AV", aquele a que se liga o DVD.
Mas o que eu tinha pretendido com este post não era voltar a abordar o tema da engonhice nesse meio de comunicação. Queria era falar nos bastidores do mesmo. No facto de muitos verem que, por detrás das novelas, dos telejornais e dos talk-shows, há um mundo mágico de "making of" a descobrir.
Enganados. Vós estais redondamente enganados.

Como é que há pessoas que podem pensar que o «Ídolos» não passa de um esquema montado em que, efetivamente, muitos dos bons cantores nem chegam ao júri e que os que ganham são geralmente esquecidos por todo o Portugal passado um dia de terem vencido o epíteto de Ídolo de Portugal (mas mais da SIC e da Fremantle, que recebem os cobres com tudo isto)?

Já tinha tido vários relatos que me mostravam a farsa de programas como este, mas agora um mais recente, vindo de uma pessoa que eu conheço, fez-me escrever sobre este problema.

O caso do «Ídolos» não é único. Basicamente, todos os programas de "talentos" que se teem feito no nosso Portugal e arredores na última década vivem à base disso: as pessoas passam por um selecionador, que diz quem são os com boa imagem e os cromos que não sabem cantar (mas que dão audiências) que, depois, passam para o júri em si. Nada disto tem alguma magia metida, amigos e amigas! É tudo feito assim. E, lá no meio, até deixam passar algumas pessoas com talento a sério para serem músicos na vida - mas que, certamente, não seguirão essa via, por uma série de razões que eu sei lá quais são.

O filme «Quiz Show», de Robert Redford, é o maior exemplo que de momento me posso lembrar que mostra a manipulação e todos os esquemas que estão por detrás das câmaras de televisão. É um filme que recomendo que todos vejam - aliás, passa constantemente no Canal Hollywood - outro canal que, quando lhe apetece, transmite filmes bons e não apenas filmezinhos que conseguem ser suportáveis porque temos pipocas ao lado, que sempre nos conseguem entreter mais do que o que está a passar no ecrã - e reparem, eu nem sou muito apologista de ingerir pipocas no cinema! Nesta fita, o personagem de John Turturro é um indivíduo que é, desde há algumas semanas, o vencedor de um popular concurso de "quiz" nos EUA. Só que, entretanto, a produção do mesmo decide que está na altura de encontrar um novo vencedor consecutivo e aldraba o esquema todo para que Ralph Fiennes seja o sucessor de Turturro.

O que eu pretendia com este textinho (e que, como já é habitual nos meus posts, não consegui explicar como deve ser) é que eu queria que as pessoas acordassem, principalmente as da minha idade, e não depositem esperanças em programas de TV, ou que pensem que a vossa vida estará toda feitinha se entrarem num desses programas. Isso é mentira! Uma grande mentira! As pessoas podem afirmar-se como alguém sem recorrerem a programas patéticos (que são também grandes momentos de encher chouriços), e, com preserverança, força de vontade e apanhando as pequenas oportunidades que vão surgindo, se calhar podem conseguir ir mais longe do que esses programas possibilitam (veja-se, por exemplo, o caso flagrante da Aurea - que eu nem desgosto, mas as sucessivas repetições nas rádios me têm enjoado um bocado da voz dela -, ela foi ao «Ídolos», não passou, mas agora é tanto ou mais famosa que qualquer um dos indivíduos que ganhou esse concurso)

Isto foi o que, em resumo, eu disse à pessoa minha amiga que participou no casting do «Ídolos» e que foi rejeitada, por uma série de razões inexplicáveis para qualquer pessoa normal, mas percetíveis para quem trabalha para a televisão: o que eles querem é audiências, mai' nada.

Já agora, aproveitem para fazer coisas de jeito e não perderem tempo demais com esses "programinhas". É uma completa queima de tempo!

Uma mensagem sincera do Rui Alves de Sousa

Comentários

  1. Absolutamente de acordo! Eu também só ouvi a canção vencedora (no caso do festival da canção).

    Gostei muito do teu texto, muito bem escrito, claro e preciso. Obrigada,
    MRosário

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