Voltando a criticar o cinema português - E desta vez quero falar com uma seriedade parecida com a de Miguel Sousa Tavares

Ontem a RTP memória dedicou todo o seu dia a transmitir programas de humor portugueses. Transmitiu até programas do Herman que tive oportunidade de ver. As exibições destes programas, num dia totalmente dedicado ao humor na nossa língua, eram intercaladas com entrevistas de Júlio Isidro a humoristas da nova geração.


No final da noite, foi exibido um dos maiores clássicos do cinema português, um pertencente à chamada «época de ouro» do cinema luso. Estou a falar de «O Pai Tirano», uma grande comédia à portuguesa de António Lopes Ribeiro, protagonizada por Vasco Santana e Ribeirinho, em que a sua personagem anda atrás da menina "Tatão" e trabalha nos armazéns Grandela.


E foi a ver um bocado desse filme, e antes uma entrevista do Júlio Isidro ao Nilton, que decidi que estava na altura de voltar a pegar no tema do cinema português, que foi alvo de uma edição das «Coisas que me irritam», mas que, assumo, foi escrito de uma forma muito «infantilóide». Neste texto vou voltar a abordar o tema, mas tentando ser mais sério. Quando quero consigo fazer um texto repleto de seriedade, onde as piadinhas ou as brincadeiras de escrita são raras de se encontrar.

Foi a visionar uma parte de «O Pai Tirano» que me voltou à cabeça que incomoda muito a generalidade dos portugueses. Ou talvez não. Estou a falar do facto do nosso cinema, na maioria dos casos, não ser... cinema, mesmo depois da (pequena) polémica que o meu anterior post sobre o tema teve. E mesmo assim continuo com a minha opinião.


Sim, é verdade, existem filmes bons, como muitos dos que o «espectador indignado», indivíduo que comentou esse meu primeiro post sobre este tema mencionou, mas são poucos, e não há assim nenhum que seja uma grande obra-prima! E porque é que hoje em dia já não se faz cinema como o desses tempos do «Pai Tirano», do «Pátio das Cantigas» ("Ó Evaristo! Tens cá disto?!"), da «Canção de Lisboa» ("Chapéus há muitos, seu palerma!") e de tantos outros clássicos que ficaram na memória dos portugueses e que até hoje em dia são alvo de inúmeras reposições e continuam a ter sucesso de audiências?


Bem, a minha teoria envolve o problema de que na actualidade, tal como o Nilton disse na entrevista feita por Júlio Isidro, estes filmes tinham uma certa humildade e cativavam o público com temas simples e histórias alegres, como o cinema italiano, que ainda (e felizmente!) consegue preservar essa característica em muitos dos filmes que produz, como no filme «A melhor juventude», de Marco Tullio Giordana. Estes filmes portugueses clássicos (os únicos que ainda o público gosta de ver) são dos tempos, ui, "sombrios" do salazarismo, como muitos gostam de chamar. E hoje em dia, essa humildade, no cinema português, onde está? Kaput! Foi-se.


Se temos capacidade para se fazer bons filmes, porque é que não fazemos? Se naquela época os meios para os filmes eram mais reduzidos e faziam-se filmes mais memoráveis, porque é que isso não acontece nos nossos dias, na maior parte dos casos (e volto a dizer na maior parte, porque o cinema português tem alguns bons filmes, que até deveriam merecer mais destaque no meio cinematográfico)? No presente há mais meios, há mais capacidade para fazer grandes obras, porque é que não as fazem? Tal como o Nilton exemplificou, a versão original da sitcom «The office», de Ricky Gervais e Stephen Merchant, teve um orçamento mais simples, mas foi mais humana e realista que a americana, de que também sou apreciador, mas onde há mais orçamento e tudo parece «perfeitinho», e por isso tira uma certa mística da série original.


Talvez seja pelo facto de estes filmes serem dessa época que muitos consideram negra do nosso país (eu nem por isso) que muitos realizadores, com mentalidades mais para fazerem outras coisas com a câmara que chamam cinema e que na realidade não o é, decidem avançar com outros projectos que são, sem dúvida, memoráveis (perdoem-me a ironia), como o filme «Branca de Neve» de João César Monteiro, que deve ser a mesma coisa que ouvir rádio no carro. Aliás, se algum dia editarem o filme para uso doméstico (o que acredito que não vai ter grandes vendas), é melhor fazerem em CD, já que o filme é só som e não há imagem. Outro problema é que certos realizadores acharem os seus filmes como «arte» e os dos outros já dize que são «lixo», como os filmes americanos (sim, sim, esses filmes são péssimos. Então «O Padrinho - ui! - isso nem se fala. Perdoem-me mais uma vez a ironia).


Oh meus amigos, digam o que disserem do «Crime do Padre Amaro» e da «Call Girl» e da «Amália - o filme» (filmes que não são do meu agrado), eles tiveram grandes receitas de bilheteira. E o nosso cinema, para se comercializar e ser maior, na minha opinião é preciso fazer urgentemente mais filmes para o público, para depois, quando houver muito dinheirinho para subsídios de cinema, já se possam fazer esses "filmes" que dez pessoas vêem, e cinco delas ainda saem do cinema logo cinco minutos depois da sessão começar.


Lembro-me também do que o professor que deu o workshop da história do cinema disse quando lhe perguntei sobre o que achava do cinema português. Deve haver um mercado diversificado para todos. Depois os intelectuais que se preocupem a fazer os seus filmes quando houver espaço para todos os géneros e não só para filmes subsidiados pelo Estado que ninguém entende porque, na realidade, não dizem nada e só mostram movimentos de câmara muito lentos e que nada dizem. Aliás, o Estado subsidia esses filmes para conseguir dizer "Eh olhem! Estão a ver? Aqui, o Estado, a subsidiar a cultura, hein?".


Desculpem a expressão, mas "cultura" o caraças!

É urgente haver bons filmes! E haver há, só que são pouquíssimos. O mais recente é «José e Pilar», que vi quando foi exibido na SIC e era um bom filme.
E até pode haver filmes lentos, com realizações diferentes, mas... têm de fazer sentido! Falo-vos, por exemplo, da realização de Francis Ford Coppola (que pode ser lenta, mas é inteligente) e a de Alejandro Gonzalez Iñarritú (vi ontem um filme dele, e o seu tipo de realização é diferente, mas faz um grande filme!).
E agora não me venham dizer que eu não conheço o cinema português porque é mentira, ok? Informei-me mais e melhor e continuo com a mesma opinião que sempre tive!


Era esta a mensagem que eu gostava de passar. E gostava que as pessoas lessem isto.


O nosso país não pode ser uma completa coboiada em termos de cinema. Está na altura de mudar o que já é considerado hábito na nossa cultura!


PS - É normal que me deva ter esquecido de falar de uma ou outra coisa, mas se me lembrar actualizo este post. Tentei escrever este texto o mais sério possível, para conseguir exprimir as minhas ideias da forma mais adulta e coerente possível (já que há pessoas que gostam de dizer que sou "adulto" para a idade que tenho, posso usar essa tal minha "adultice" de vez em quando, e fazer posts que possam até, sei lá, promover debates no blog. Uma ideia engraçada).


Já agora, também era bom que o cinema português conseguisse ser um pouco mais realista. É claro que aquelas comédias antigas têm um certo ar teatral e revisteiro, mas conseguiram retratar bem a época em que foram feitos. E que tal se, nos nossos dias (mesmo os grandes sucessos portugueses de bilheteira, aqueles filmes que eu não gosto nada), poderiam, sei lá, ter guiões mais realistas, situações mais realistas... enfim. É usar a criatividade.


E não se esqueçam... Eu sou apenas um jovenzinho de dezasseis anos, por isso.. tenham calma com as vossas opiniões. Não se exaltem, fachavor.

Comentários

  1. Eu não vou criticar porque acho que tu não estás a falar de cinema, estás a falar de filmes. E tens uma concepção de "cinema" que eu não tenho. E enquanto estivermos a falar de coisas diferentes nunca poderemos chegar a consenso.

    Vê isto, e podes concordar ou não mas vê, porque este senhor diz o que eu penso.

    http://www.youtube.com/watch?v=DnLAWXag1Qg

    (depois se quiseres podes ver as outras 2 partes, mas esta tem o essencial).

    Depois eventualmente, responde com o que achares :)

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  2. Tens uma certa razão, o cinema portugues devia ter filmes BONS para o grande publico, podia ser que houvesse mais projeçao a nivel internacional, quem sabe? Mas o que é certo, é que os ditos filmes de autor, continuam a ser os melhores filmes portugueses alguma vez feitos. Vê "As recordações da casa amarela", está cheio de citações hilariantes, e a ensenaçao é bastante boa. A cinematografia e a musica condizem bem, e o argumento é genial.

    Voltando ao cinema comercial, em Portugal é uma merda, ponto final paragrafo travessão reticencias, é uma merda, filmes desses ha em todo o lado e melhores. Quando um portugues tenta fazer um filme para render, acaba sempre por ficar um pastiche mal feito dos filmes americanos. Isto so prova que filmes como Tabu, Sangue do meu sangue, A comedia de Deus etc... é que realmente sao originais e têm algo a dizer, porem, acho que, sem querer desrespeitar ou rebaixar as obras dos portugueses, deveria haver uma revoluçao como a da novelle vague, para rebentar com os ditos "canones" do nosso cinema, como por exemplo, a tão desprezada lentidao narrativa, a estaticidade, os argumentos incompreensiveis, e assim por diante... (não que eu não goste disso, alias, eu adoro cinema portugues de todas as epocas) Porque desta forma, parece que a coisa nem anda nem desanda, apesar das pessoas cada vez mais irem ver filmes portugueses, mesmo assim acho que devia haver um click*, uma explosao, de repente alguem romper com isto tudo e transformar o cinema como o conhecemos, e hoje em dia nem é muito dificil fazer um filme, com a internet, as cameras portateis e os compotadores, os meios estao à nossa disposição...

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