sexta-feira, 22 de julho de 2011

Mais cinema português em debate

Fiz aquele post sobre o cinema português e o caro seguidor Musicólogo mandou-me um comentário com um link que era um vídeo de uma entrevista ao João Botelho sobre o cinema português. Antes de mais nada agradeço o comentário e o link. Vi o primeiro sugerido e a parte final da entrevista.

Eu gosto do João Botelho, porque é uma pessoa que diz algumas coisas que na verdade tem muita razão, como o facto da literatura que se dá nas escolas, e do próprio cinema português. Eu não quero denegrir o cinema português, e também por ver o blog do musicólogo percebi que temos pontos de vista diferentes em relação a este assunto. Até há uns tempos tive oportunidade de ver o «filme do desassossego» e gostei, mas é um filme que divide opiniões. Não concordo com a opinião dele que a história nos filmes não interessa. OK, é claro que o tipo de realização, a montagem, etc, caracterizam um realizador, mas o público, a maior parte das pessoas, vai ao cinema para se contar histórias. Aliás, que eu saiba, o João Botelho foi realizador de um filme - que esse sim eu digo que é uma mer-- e não os filmes dos anos 30 e 40 como ele diz - chamado «Corrupção», (foi o realizador mas por desacordos com o produtor não foi creditado) que era um típico filme que dá bilheteira.

Opiniões são opiniões, e embora eu respeite o Botelho por ser uma pessoa importante e de renome do nosso cinema, não precisa de estar a atacar as pessoas por terem uma opinião diferente da dele.
Ah, e já agora, o João Botelho fez uma comparação que me irrita mesmo que a façam, que é quem não gosta de cinema português então é porque não gosta de cultura, de música, ou como ele diz, é «como quem adormece a ouvir um quarteto de cordas». Ora, eu não adormeço a ouvir quartetos de cordas, porque gosto de música. Eu gosto de cinema, também, mas não de tudo. Mas também ligo muito à parte técnica dos filmes. Por exemplo, eu gosto de «O Padrinho», porque, mais do que a história do filme (que quer queiram quer não é extraordinária) a realização e a banda sonora é perfeita.

Agora, querem-me vir dizer que, por exemplo, «Cristóvão Colombo - o enigma» do Oliveira é uma obra-prima porquê? Por ter um plano parado no céu que dura cinco a dez minutos? Desculpem lá, isso não é arte, para mim. E já que é o tipo de filme que o Botelho gostaria de realizar, «a filmar durante uma árvore durante duas horas». Desculpem lá, mas O QUÊ?! AS PESSOAS IRIAM VER ISTO? Ele acha que sim. Eu não.

E também falou que o Oliveira é muito importante lá fora. Boa, em festivais, etc. Mas não estou a ver os filmes do Oliveira como grandes orientadores de massas.

Há pessoas que gostam de filmes assim, e outras não. E se de repente todo o cinema de todo o mundo fosse como os filmes do Oliveira, desculpem que vos diga, mas a indústria falia.

Eu gosto de todo o cinema, e europeu também. Há filmes notáveis. «A melhor juventude», Goodbye Lenin», etc, aliás, os filmes que o Botelho mencionou e que marcaram o cinema. Mas não é vandalizar os americanos, e dizer que filmar uma árvore duas horas é cinema. E ainda por cima com o apoio dos subsídios do Estado. É por isso que as pessoas em geral não gostam de cinema português porque o que é mais divulgado são filmes assim.

Gosto de cinema, e uma parte do português, como já referi aqui e no outro post. Mas não gosto de filmes em que há um plano longo fixado no mesmo sítio, como o Oliveira faz. O Botelho disse mal dos filmes portugueses dos anos 40 porque tinham «anedotas, piadas ordinárias e planos parados». Olha! O Oliveira faz o mesmo, em relação a planos parados. Pois é, que coincidência.
A minha definição do bom cinema não são as tretas de sábado à tarde da SIC e TVI. São os filmes que mexem connosco.

E há séries que também são muito boas, que parece que é algo que o Botelho não compreende. Falou mal do «The office», como porque é que há motivo para se gostar daquilo. E o Nuno Artur Silva disse e muito bem, porque têm personagens. E o Botelho «Sim, mas as minhas o que são?». O que o cinema internacional consegue que o português muitas vezes não consegue e que também pode ser causa do seu insucesso é a falta de humanização das suas personagens. As pessoas vão-se lá identificar com um tipo que aparece a olhar para um espelho durante meia hora, sem dizer nada.
Concordo com uma das afirmações finais de Botelho. Tem de haver lugar para todos. É verdade, e que é necessário mexer na cultura. Isso sim. E é também importante que as pessoas vão ao cinema, ou que então não pirateiem. E que vão aos cinemas normais, que é o que eu gosto mais também, detesto ir aos shoppings ver cinema, até porque o King, onde costumo ir, é um cinema agradável e muito melhor por não estar num centro comercial.

E tenho pena que o Botelho tenha muita razão em que muita gente da minha geração interessar-se é em ir para a borga. É pena, e é verdade... Mas percebe-se porque é que muitas pessoas mais velhas, a partir dos trinta, quarenta, não vão tanto ao cinema. Porque se calhar têm vida, se calhar têm coisas mais importantes a tratar na vida. Sr Botelho, eu também gosto muito de cinema mas não podemos elevá-lo acima de todas as artes! As pessoas não o consideram a sua «religião», mas sim uma distracção, e por isso quando querem ver um filme é um filme bom, com história, claro. Nem toda a gente tem o tempo que o senhor tem para ver filmes, ir ao cinema... É como aquelas pessoas que vão a África ajudar os pobrezinhos e depois dizem que todos deveríamos fazer igual. Boa, se calhar era bom que fosse se tivesse a disponibilidade que esses têm.

Vamos a ver os rumos que tomará o cinema português. E se se diversifica mais. Isso é que é importante.

PS- Até tive pena do Nuno Artur Silva, do Pedro Mexia e do Pedro Vieira. Quer dizer, acho que o objectivo deles foi conseguido, mas... pronto, o João Botelho... não estava particularmente manso... E se ele algum dia chegar a ver este post, ui... estou feito.

Ah, e desculpem por o texto parecer ter sido um pouco escrito à pressa. Mas ao ver aquele vídeo, surgiram-me na cabeça um milhão de ideias para escrever este post e foi tudo um pouco assim «à balda». Mas acho que disse o que tinha a dizer.

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