E cá vem mais um...

Um capítulo do Olho Morto, o policial habitual das sextas-feiras. Ou sábados, como é hoje o caso. Ou domingos, como foi na semana passada.

Enfim, é quando me vêm as ideias à cabeça.

Olho Morto, Detective Público

Um caso muito particular

Parte 16

Entrei no escritório e dei com o meu chefe a gritar...

-MAS ONDE RAIO É QUE SE METEU AQUELE ESTAFERMO DO OLHO MORTO?! JÁ VIRAM AS HORAS? JÁ VIRAM AS HORAS? AI MINHA NOSSA SENHORA! E DEPOIS QUEM SE LIXA SOU EU! SEMPRE EU! SE ESTES ATRASOS CONTINUAREM, BEM, NEM SEI O QUE FAÇO A ESSE MALTRAPILHO!...

Ele não se tinha dado conta da minha presença ali, até que eu abri a boca e lá de dentro, saíram estas palavrinhas:

-Precisa de alguma coisa, chefe?

Espantado, olhou para mim e disse:

-Venha ao meu gabinete, depressa!

Ouvi vários burburinhos de fundo. Colegas que diziam «Vai haver bronca!», outros que diziam «Epá! Coitado do Nelo...», e um ou outro que se viraram para mim e disseram «Vai-te a ele pá!». Esta última, interpretei-a, por momentos, de uma forma um pouco para a porca. Depois é que percebi o contexto da frase.

Lá cheguei ao gabinete do senhor Gabriel Navalhas e bati 3 vezes e meia, como é hábito. Lá dentro saiu um rude «Entre!», e eu abri a porta e encostei-me a ela, quando a fechei.

Depois de alguns momentos de silêncio, foi ele que começou a conversa.

-É assim, Olho Morto, não quero que se volte a atrasar desta maneira...

-Mas, chefe, foi o trânsito!

-Mas, que eu saiba, você não demora tão longe daqui para chegar duas horas depois do previsto!

-OK, OK, hoje dormi mais um pouco, também. Mas não volta a acontecer chefe! O chefe sabe que eu venho sempre a horas e...

-Pois, mas agora você tem um caso que tem de ser resolvido o mais rapidamente possível, e que eu saiba, até agora ainda não fez grandes progressos.

-Pois, mas hoje ia continuar a interrogar os suspeitos e...

-Está bem, está bem. Então despache-se! Quero isto resolvido em menos de uma semana.

-QUÊ?

-Sim, ouviu bem. Uma semana.

-Mas, chefe...

-Nem mas, nem meio mas. Resolva isto em 7 dias ou despeço-o!

-Mas ainda faltam 15 suspeitos para interrogar!

-Então, vá interrogá-los! Que eu saiba também não precisa de muito tempo para os interrogar. Duas ou três perguntas e basta. E comece JÁ a trabalhar!

-Sim, chefe.

E saí dali.

Dei uma vista de olhos para a lista dos suspeitos, que tinha no bolso das calças, para verificar o que se seguia.

Ora, como não havia nenhum que o seu nome começasse pela letra B, e, segundo a sequência do abcedário que tinha aprendido na infância (a não ser que algum ser se tivesse lembrado de mudar a ordem das letras do alfabeto... pois pois! Neste país pode acontecer de tudo! Se nos querem meter a falar em brasileiro, pode-se esperar uma coisa destas!), a letra que se seguia era o C. E o primeiro nome que começava por esse letra, na lista, era «Carla Mota».

-Ora, ela vive relativamente perto daqui, a cerca de dois quarteirões! - Exclamei. - Esta não me vai tirar muito tempo.

Também, aquele caso já me estava a irritar, e resolvê-lo rapidamente era bom para mim, porque assim podia livrar-me daquele estranho mundo que era a minha infância na escola...

Continua...

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