sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Policial está cá mais uma vez!

E cá vem, mais um capítulo, episódio, parte, chamem-lhe o que quiserem, desta história do Olho Morto, o detective público.

Leiam-no!

Olho Morto, detective público

Um caso muito particular

Parte 8

Chegámos à dita morada. Era um bairrozinho típico de Lisboa. Prédios pequeninos, com cerca de 3 a 4 andares, sem ruído, enfim, havia paz naquele lugar. Ao menos a mim parecia. Fazia-me lembrar o meu bairro de infância. Era parecido com este.

Parámos em frente a um prédio cor-de-rosa. Por sorte (coisa incrível), havia um lugar disponível à porta da dita habitação.

-Finório, toca aí no 2.º direito.
-Ó chefe, isto aqui não diz nada!
-Então procura! Caramba pá, tenho de ser eu a fazer tudo? Usa a cabeça!
-Ah, pronto, 'tá bem. Se o chefe quer assim. Olhe, acho que deve ser este.

Segundos depois do Finório clicar num dos vários botões (acho que ele escolheu à sorte, por eu o estar a pressionar), ouviu-se uma voz. Uma voz que me parecia de uma pessoa já de idade avançada.

-Quem é?

O Finório afastou-se um pouco, talvez por estar com medo de ter tocado no botão errado e de eu lhe dar represálias.

-Boa tarde, minha senhora - Disse eu.
-Olhe, se é outra vez dos inquéritos da PT nem sabe o que lhe faço!
-Desculpe! - Retorqui. Só queria saber se é aqui que mora a senhora Anne Madrureira?

-Não! E não me venham chatear mais! Eu sei muito bem que vocês são daqueles envangelicozinhos! Vão-se embora daqui já!

Brutamente desligou. Eu senti aquele ódio da senhora, pelas pessoas que ela julgava estarem ali mas que afinal não eram quem ela pensava. Eu só disse para os meus botões: «Coitadinha, temos de desculpá-la. A idade...». O Finório já estava aflitinho de medo, a uns passos de mim, a ver o que é que eu lhe ia fazer. Um dia destes ele ainda fica com traumas!

Não lhe fiz nada, porque francamente achei que não era justo. Disse-lhe apenas:

-Vai ali tomar qualquer coisa.
-Mas chefe...
-Eu pago!
-Mas, chefe...
-Mau! Que é que preferes? Levar reprimendas ou aproveitares esta oportunidade para ires relaxar um pouco? Hmm?

Retirei uma moeda de 2 euros do bolso, e depois de ter feito uma acrobacia com ela, pu-la na mão do Finório.

-Vá! Vai lá! Daqui a meia hora à porta do carro! - disse-lhe.
-Ok chefe! - respondeu-me ele. Saiu a correr quase a saltitar, parecia uma criança grande. Será que não o é? Bom, eu acho que todos temos uma criança dentro de nós e que...

Não nos desviemos da história...

Bom, toquei no botão certo.

-Olá, boa tarde. É aqui que mora a senhora Anne Madrureira? - perguntei, ao ouvir o barulho do ligar do auscultador do intercomunicador.

-Sim. É a própria! - Respondeu-me uma voz, mais nova e doce, e com um sotaque francês, diferente da interveniente anterior.
-Sou o detective Olho Morto. Gostaria de lhe fazer umas perguntas acerca do assassínio de Rui Sousa, que ocorreu há uns dias.
-Ah... está bem! Faça favor! - E abriu-me a porta.

Escadas depois, apareceu-me uma mulher. A Anne.

-Nelo?
-Sim, Anne, sou eu. - respondi.
-Mas, estás tão diferente!
-Também, já se passaram muitos anos, não é?
-Pois... mas então agora és bófia? - perguntou-me ela, já com um ar menos doce.
-Não. Apenas detective. E tu? O que andas a fazer?
-Ah... sou maestrina de uma orquestra.
-Hmm... tu gostaste sempre de música... Mas agora preciso de te fazer umas perguntas sobre o assassínio do Rui.
-Com certeza… então… vamos para a sala.

Guiou-me para um compartimento pequeno, mas acolhedor, aliás, a casa nem era grande.

-Então, explica-me, o que te lembras desse dia?
-Bom - começou ela - cheguei um pouco atrasada à festa...

Interrompi-a logo, para lhe fazer a fatídica pergunta:

-A que horas?
-Às dez.
-E notaste algo de estranho no jantar?
-Que eu saiba, não. Embora, certas pessoas não estivessem muito contentes em estar ali. Sabes, aqueles que, pronto, nunca se deram muito com o Rui, só lhe falavam quando ele pudesse ser útil, mas que ele fez questão em convidar.
-Nem precisas de dizer quem são. De certeza que são o André, a Teresa, a Lídia, o Estevão e o Augusto, presumo.
-Mesmo em cheio! Como sabes?
-Eu conheço mais aquela turma do que naquele tempo parecia ser.
-Explica-te melhor - pediu ela.
-Eu podia ser um desligado da turma na altura, mas eu sabia mais sobre a turma do que vocês todos!
-O que é que tu estás para aí a dizer?!
-É verdade! Sabia das intrigas que havia, conseguia ver no olhar das pessoas quando estavam a ser falsas e hipócritas! Qualidades que me levaram a querer ser detective, porque não tinha grandes aptidões para o resto, e que preservo até hoje.
-Ah... ok. - Disse ela, parecendo não estar bem «na onda».

E cheguei à pergunta final:

-Olha, não perguntei isto ao André, porque nunca tive grande confiança nele, mas pergunto-te porque fomos grandes amigos...
-... e namorados... - disse ela, de novo com voz doce.
-Sim, isso também, e por isso pergunto-te. Quem achas que matou o Rui?
-Olha, eu cá não sei bem. Mas tenho a sensação que o Miguel o poderá ter morto.
-Hã? O Miguel? Mas então foi ele que me contou do caso! Estás louca?
-Tu é que me perguntaste! Eu só te dei o meu palpite!
-Mas então, porque dizes que foi ele? - Perguntei, já um pouco zangado.
-Bom, acho que o Rui andava a dever algumas porções de dinheiro ao Miguel. Mas não sei. Isto foi só diz-que-disse.
-Ok. Obrigado por teres respondido ao meu interrogatório.

Tinha saído daquele andar, ia descer as escadas e ela diz-me:

-Um dia, vamos tomar um café?

Eu demorei algum tempo a responder:

-Sim, Anne, um dia vemos isso. Adeus!

O Finório já estava à espera no carro.

-Até que enfim, chefe! Estava a ver que nunca mais! Retorquiu ele.
-Mas demorei pouco! Só demorei metade do tempo! Olha, e foste tomar alguma coisa ali ao café?
-Nããã... - respondeu-me.
-Mas porquê?
-É que... é que... eu deixei cair a moeda numa «srajeta»... mas foi sem querer, chefe! Desculpe!
-Aiiaiaiai! Eu um dia destes ainda me passo contigo, Finório! . Disse-lhe, tentando controlar os nervos. - Mas agora ainda não, porque ainda temos muito trabalho pela frente e tu ainda podes fazer asneiras muito piores que essa! Vamos! Entra no carro!

Seguimos viagem para interrogar o suspeito que se seguia.

Continua...

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